domingo, 10 de junho de 2012

Convidei para jantar - José Luís Peixoto (Torradas com beldroegas)



No seu livro Cal, José Luís Peixoto escreveu que

As mulheres de 80 anos sentam-se em todas as cadeiras
como se estivessem sentadas em tronos. Podem ter anéis
nos dedos, como podem ter lenços de assoar nos bolsos.

Em natais, festas de aniversário com pão-de-ló, ou em
casamentos, as mulheres de 80 anos reúnem uma
assembleia de afilhadas solteiras e explicam-lhes

que a vida é transparente e que o passado, fechado em
armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como
as pratas dos chocolates que entregam nas mãos das crianças.

E foi com o regaço ávido de histórias singulares como esta que ousei convidá-lo - ao José Luís Peixoto - para um serão aqui em casa, quando o vi aqui na cidade, junto à estação de autocarros, pelas nove da noite. Perguntei-lhe sem pensar se queria subir para jantar ou se já tinha jantado. Respondeu-me que sim, que subiria e nesse momento apercebi-me que estava metida num sarilho. Nas escadas vínhamos calados - eu pensava atormentadamente no que ofereceria para jantar e ele trazia um silêncio desprendido daqueles que sabe bem ouvir. E foi com o sentir do destoar destes silêncios que, já com a chave na porta, lhe perguntei se gostava de torradas e beldroegas. Riu-se e disse - Pois com certeza.

Nem sequer tinha pão do que faço em casa - só uns cacetinhos de supermercado - mas isso não impediu que aquele sabor ainda hoje se me faça sentir na cabeça, ao mesmo tempo que se encadeiam estórias de pessoas novas e velhas, de cães de estimação e de famílias de rica gente. 

O pão foi torrado numa pequena chapa ao lume - a torradeira tinha-se avariado há uns dias - e talvez por isso ficaram tão boas. Ou isso ou foi das estórias. As beldroegas, essas, tinham sido trazidas no dia anterior do terreno lá por detrás da casa nova. Tinha sido a minha mãe a apanhá-las, com jeito e amor, e por isso, seguramente, sabiam tão bem.  

O jantar - se é que lhe posso chamar assim - foi avançando devagarinho, ao ritmo das palavras e dos paladares. E no final, cada espaço - de estômago e de sentimento - estava completo. Foi bom, com tudo o  que a palavra tem de melhor.

Um pouco antes do último autocarro para Lisboa despedimo-nos com um até amanhã, como se despedem os amigos que se conhecem desde sempre e se encontram de perto em perto. O José Luís não quis que o levasse ao autocarro - disse que era já ali  - e acrescentou que nunca um convite para jantar se tinha revelado tão inesperado, quer pelo momento quer pela ementa. Ri nervosamente, ao que ele acrescentou com determinação - Estava delicioso! - E na sua expressão percebi que dizia a verdade.



Torradas com Beldroegas (acompanhadas de um Esporão Reserva 2009 Tinto)

- Torradas de pão de mistura
- Folhas de beldroega temperada com sal marinho, azeite e vinagre de ameixa Umeboshi.


[Esta entrada foi escrita no âmbito da iniciativa "Convidei para jantar" do blogue Anasbageri - A padaria da Ana, na edição "Escritores Contemporâneos" promovida pelo blogue De cozinha em Cozinha passando pela Minha]


Um obrigada ao escritor José Luís Peixoto pela sua escrita. Por nos dar o prazer de o ler.

3 comentários:

  1. Querida Matilde,
    Da tua escrita emana o perfume das beldroegas apanhadas pela tua Mãe. Escreves com um rigor Físico pleno de equações poéticas!...
    Quase - quase- me convences a reler o JLP que, há uns anoas atrás, foi, durante as 30 primeiras páginas do "Cemitério..." «O meu autor favorito» - aquele cujos livros, todos, iria ler de rajada (sou monogâmica nestas paixões da leitura - só consigo ter um favorito de cada vez e quando já li tudo o que dele se publicou em idioma que conheça rapidamente passo ao favorito seguinte...), mas confesso que me desiludi. Tentarei o "Cal" que referes até porque os versos são portentosos.
    Bjs e continuação de boas leituras!
    ptc

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  2. Matilde,
    Compreendo que não tenhas resistido a convidar José Luís Peixoto. As suas palvaras são enebriantes. Ainda hoje li uma entrada no seu blogue, "Porto", um excerto desse livro que está a pairar na minha estante e que me deixa a sonhar com palavras. Como é possível, não é? Pintar o mundo a palavras...Obrigada pela tua participação.
    Beijinhos

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  3. Obrigada ptc pelo teu simpático comentário. O JLP é na verdade um autor de quem gosto muito e este "Cal" é para mim um livro fascinante.
    Carla - foi um gosto participar no passatempo, ainda que com alguma batota, já que de jantar tem pouco. Mas quem nunca fez uns jantares assim improvisados?...
    Beijinhos para as duas.

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