domingo, 10 de junho de 2012

ESTE SÁBADO CONVIDEI PARA JANTAR...

Por mera casualidade, tomei conhecimento desta iniciativa da Padaria da Ana (http://anasbageri.wordpress.com/), cuja edição em curso é dedicada a escritores contemporâneos, tal como definido pelo blog anfitrião:
De Cozinha em Cozinha passando pela Minha
(http://decozinhaemcozinha.blogspot.se/search/label/Convidei%20Para%20Jantar).
Pensei em convidar Julian Barnes, aqui já referido algumas vezes. É um autor contemporâneo, escreve tão bem que já foi nomeado várias vezes para o Booker (tendo ganho a última edição, não necessariamente com o seu melhor livro, mas isso são outras contas…) e interessa-se por cozinha. Perfeito!
Mas de repente gelou-se-me o sangue nas veias – convidar alguém que gosta de tarte de rim (!!!) e que vive recorrentemente amargurado com a ideia da morte... Definitivamente, não seria esta a melhor companhia para o dia em que se concretizou o resgate da Espanha, adensando ainda mais as nuvens negras que vão asfixiando uma Europa incapaz de se reinventar para sair de uma das suas piores crises.
Por sugestão da cara-metade, convidamos então o Patrão da Barca, aliás J. Rentes de Carvalho, mais conhecido nos Países Baixos, onde assentou arraiais há mais de cinquenta anos e autor do blog TEMPO CONTADO ( http://tempocontado.blogspot.pt/ ).
J. Rentes de Carvalho tem, perante Barnes, a evidente vantagem de falar a mesma língua, de ser um excelente conversador e contador de histórias, de ter uma perspectiva positiva - ainda que lúcida e crítica - da vida, que foi vivida desde fins dos anos 50 na Holanda, país que conhecemos por razões profissionais, de ser natural de Vila Nova de Gaia, prima da minha mui nobre sempre leal e invicta cidade do Porto e, tal como nós, ter origens durienses.
Cheguei a J. Rentes de Carvalho por intermédio de uma amiga que viveu na Holanda alguns anos e me emprestou o livro “Com os Holandeses” há uns três anos.
Não foi amor à primeira leitura.
Em 2011, assisti ao lançamento do livro La Coca, novo em Portugal, mas já antigo na sua Holanda de adopção.
A apresentação do livro coube a Henrique Raposo (http://clubedasrepublicasmortas.blogs.sapo.pt/767124.html) e foi tão vívida e bem preparada que comprámos Ernestina, La Coca e A Amante Holandesa (ainda não havia votos de austeridade por essas alturas…). Lidos, todos, vorazmente, entre os dias 13 e 25 de Abril.
Rentes de Carvalho não é um autor fácil. Desde logo pelos temas. Diz o próprio que nasceu no século XIX (que seria onde estava a Vila Nova de Gaia de 1930, ano que o viu nascer).
Lemos Rentes de Carvalho e não queremos acreditar que ele fala de Portugal. Mas é. Não o Portugal dos alegados brandos costumes, não o Portugal pseudo-cosmopolita do eixo Cascais-Lisboa - descendente em linha directa da burguesia lisboeta queirosiana -, enjanotado nas lojas chiques (ou, simplesmente, caras…) da Avenida da Liberdade, empoleiradas elas em sapatos de sola vermelha e achinelando eles em mocassins de borla ou sapato de fivela, ambos enredomados em perfumes indiscretos que os anunciam a milhas.
Rentes fala de um Portugal cruel, tão cruel como o pode ser um País que sofreu uma Guerra Civil sanguinária (como o são todas as Guerras Civis, é verdade…), que viveu uma Primeira República jacobina, intolerante e manhosa, um Estado que de Novo apenas trouxe os métodos pidescos que elevaram a segurança de Estado a coscuvilhice, a delação e a perseguição.
Rentes retrata relações brutais entre pessoas embrutecidas, muitas vezes entorpecidas pela droga de então, aquela que alimentava um milhão de portugueses. Descreve a eterna luta pela manutenção e perpetuação do poder por quem o tem – ainda que se trate, tão só, de pequenos poderes detidos por pequenos tiranetes, mas que são sempre os piores tiranos, porque são os que conhecemos e porque se vingam naqueles que têm a desgraça de estar um degrau abaixo na hierarquia social das humilhações sofridas pelos tiranos a quem servem …
Do século XIX traz Rentes o Portugal de Camilo, das paixões brutais, homicidas e suicidas, dos anjos caídos quando chegados ao antro pecaminoso da capital. Nele não encontramos o Portugal doce e suave de Júlio Dinis, que apenas nas Pupilas aflora a muita maldade, maledicência e manha que existia então no “quiet countryside” português e que Rentes nos ensina que pode ser campo mas calmo não é de certeza… O último livro que li dele, O Rebate, é violento, cruel e mostra um Portugal no seu pior.

Foi, pois, J. Rentes de Carvalho o nosso convidado, que apareceu acompanhado de sua mulher Loekie.
Para quebrar o gelo, rimo-nos educadamente da sorte comum das nossas selecções no dia de estreia no Euro 2012, da claque holandesa que costuma ser a Miss Simpatia das grandes competições – algo que nesta mesma tarde pudéramos comprovar em esplanadas onde os adeptos, vestidos a rigor com a cor de laranja da reinante dinastia de Orange-Nassau, seguiam o jogo da Laranja hoje pouco Mecânica.
Em atenção à nossa convidada falámos do povo que convoca a maior das nossas admirações - a Holanda é um País improvável que existe por causa da tenacidade, trabalho e perseverança dos holandeses que assim se salvaram de um afogamento certo, medrou graças à sua tolerância ante a diferença, recebendo os judeus que nós tão afoitamente expulsamos, com o que ganhou o necessário músculo financeiro que lhe permitiu lançar-se na conquista de um império além mares -, Pátria de Van Gogh (o único dos grandes artistas de quem gostaria de ter um quadro, se tivesse dinheiro, claro…). Mas foi a própria Loekie quem, rindo-se, logo fez jus aos nossos pré-juízos e pré-conceitos, dizendo que nos esquecíamos de referir a proverbial avareza, quiçá mesquinhez, do seu povo, a sua mentalidade demasiado pragmática que, com a mira no objectivo - geralmente o lucro... - esquece alguns bons valores luteranos…
Discutiu-se, inevitavelmente, o momento de horror que vivemos, a ausência de respostas conhecidas para as nossas muitas dúvidas e angústias, mas unanimemente proclamámos a nossa convicção - que mais soou a prece - de que daqui a um ano só poderíamos estar melhor, pois sabemos como estávamos há precisamente um ano.
Rapidamente passámos para temas mais alegres e recordámos a aventura que era viajar em Portugal no tempo em que não havia auto-estradas mas em que todos chegávamos aonde queríamos ir. Rimo-nos perdidamente com a descrição das viagens para o Douro constante de Ernestina: a contratação das cinco "carrejonas" - ninguém, mas ninguém mesmo, que não seja do Porto sabe o que isso é... - para levar as tralhas do mês de férias, as saídas de casa pela madrugada, as viagens de dez horas (um dia inteiro!), num comboio a carvão que, nos vários túneis do percurso, ia envenenando e enfarruscando os passageiros, que entretanto abriam o lauto farnel  logo às oito da manhã, bem regado de tintol. Descrição já ouvida aos meus irmãos mais velhos e de que conheço apenas o destino (só lá cheguei no século das auto-estradas...)
Sei, pelo que já li dele, que J. Rentes de Carvalho é um bom cozinheiro e um bom garfo, agora mais frugal. Resolvi preparar um jantar festivo mas leve.
Abstive-me de referir aos convidados que o repasto iria ser macrobiótico. Com um pouco de sorte, não repararam. Notei algum espanto educado nos sabores que foram provando mas tenho a certeza de que acharam que o tofucake era mesmo de de queijo...
Recorri às receitas do último workshop do Marco Fonseca, aqui já referido, mas tive que improvisar muito porque me faltaram alguns ingredientes.
E de que constou o jantar? Farei outra entrada apenas com as receitas.

1 comentário:

  1. ptc,
    J. Rentes de Carvalho foi-me "apresentado" nesta edição do CJP pela maria da Oficina das papitas. fiquei tão entusiasmada com a descrição dela que guardei um dos seus livros na minha "wish list". agora, despois de ler o teu post vou mesmo começar a ler a obra dele. Gostei imenso de ler este teu post, com uma escrita tão clara e precisa. Parabéns. Obrigada pela tua participação e vou ficara a aguardar as iguarias desse jantar.
    Beijinhos

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