terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CONVIDEI PARA JANTAR ... UM POEMA

Song of the Open Road
  
Edward Hopper----
Road in Maine, 1914

Song of the Open Road

Afoot and light-hearted, I take to the open road, 
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me leading wherever I choose. 

Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good fortune;
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,
Strong and content I travel the open road.

The earth, that is sufficient,
I do not want the constellations any nearer,
I know they are very well where they are,
I know they suffice for those who belong to them.

(Still here I carry my old delicious burdens,
I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go; 
I swear it is impossible for me to get rid of them,
I am fill’d with them, and I will fill them in return.)
Walt Whitman (1819-1892)
Leaves of Grass - Bantam Books, 1983
(segundo a edição de 1892)

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Li-o no livro da minha vida, Os Thibault, de Roger Martin du Gard, aos 13 anos, idade em que se sonha e acredita que o mundo mudará por força do nosso querer.



Marcou-me como ferro em brasa e fez-me sonhar com partidas imaginárias do mundo que conhecia e rejeitava e com lugares novos, repletos da perfeição e pureza que almejava para o Mundo e para mim própria, e que sabia - com a certeza da fé inabalável que nos confere a inconsciência – que existiam longe do lugar  onde estava.

Vezes sem conta me imaginei com um chapéu de palha, o rosto ainda mais sardento por força do Sol que iluminaria o meu caminho, saias ao vento, uma simples trouxa de roupa pendurada no fim de um pau carregado ao ombro…
Não parti.
Cresci.
Aprendi que as caminhadas também podem ser interiores e que, se muito dificilmente conseguimos mudar-nos, menos ainda podemos mudar o mundo, a não ser em pequenas coisas e sempre por pequenos gestos.
 
E, no entanto…

Relido hoje este Canto I de Song of the Open Road, assalta-me de novo a urgência de partir, ainda que seja, apenas, para, à chegada, reencontrar a adolescente de 13 anos que um dia fui e tentar beber um pouco da sua fúria de viver e da sua ânsia de perseguir ideais.

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Este poema de ruptura não convoca receitas sofisticadas.
Umas maçãs apanhadas no caminho, uns frutos secos, sal e água, um forno a lenha gentilmente cedidos por uma rancheira de uma quinta da infinita pradaria do Novo Mundo permitiram preparar estas singelas  maçãs assadas, comidas no alpendre da casa da minha anfitriã enquanto observava a curva desta estrada de Hopper e bebia uma cidra caseira, mais uma cortesia da casa. O murmúrio da vegetação rasteira trazia-me os ecos de outros versos que poderia ter escolhido para esta história - promovida pela Ana e de que a Confeitaria é a actual anfitriã - desde o Mar Português de Pessoa, ao Cântico Negro, de Régio, também eles lidos e amados aos treze anos.

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Maçãs assadas
Ingredientes
Maçãs reinetas q.b.
Uma mão cheia de frutos secos a gosto (sultanas, amêndoas, nozes), desfeitas num suribachi conjuntamente com uma colher se sobremesa de tahini (pasta de sésamo), uma colher de chá de miso de cevada e uma colher de chá de miso branco, raspa e sumo de uma laranja (no caso, foi compota de laranja amarga, sem açúcar).
Preparação
Lavar muito bem as maçãs com a escova de vegetais, retirar-lhes a parte do meio correspondente ao caroço com o instrumento apropriado, mergulhá-las em água com sal.
Depois da pasta dos frutos secos, tahini , miso e laranja estar preparada, retirar as maçãs da água e rechear a parte do meio com a pasta.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, sem água. Quando faltarem cinco minutos, pincelar com malte de cevada para dar uma leve crocante à casca.

Uma versão mais rápida e menos yang (e também menos dispendiosa, considerando o consumo energético associado ao forno) será colocar as maçãs com uma pitada de sal, pau de canela e casca de limão num tacho largo tapado e levar a lume forte cerca de 5/8 minutos ou até as maçãs começarem a inchar (as reinetas não largam muito suco e poderá ser necessário borrifá-las com água), baixando então o lume e deixar cozinhar até as maças estarem bem cozidas e imediatamente antes de começarem a desfazer-se. Polvilhar com canela e raspa de limão ou laranja antes de servir.

 
Nota: para não iniciados na macrobiótica, o recheio das maçãs pode ser preparado com os frutos secos, a raspa e sumo de laranja, um pouco de melaço e umas gotas de vinho do Porto).

2 comentários:

  1. De muito bom gosto a tua escolha ( a do poema e da receita também). Parabéns. Walt Whitman transportar-me-á sempre para o filme "Clube dos Poetas Mortos" e para o seu mote libertador: O Captain, my Captain!

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  2. eu, a devoradora de livros, comprei pela primeira vez, conscientemente e com vontade, um livro de poesia, há 15 dias. E foi este.

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