sábado, 15 de junho de 2013

CONVIDEI PARA JANTAR QUATRO IRMÃOS

A minha participação nesta edição no CpJ não poderia ficar completa sem trazer os meus irmãos. Todos mais velhos do que eu e, por isso, doutra geração. Divergimos em muita coisa mas foi por influência dos meus irmãos que me tornei fã de Cohen, Brel, Simon&Garfunkel, Joan Baez, Bob Dylon, de entre muitos outros.
 
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Cheguei, qual conjurada, à velha casa que havia visto nascer alguns de nós, assistira às metamorfoses das várias idades que lá vivêramos e, por fim, nos vira partir num dia longínquo dum Outono do século passado.

 
Percorri-a, em silêncio, um silêncio que, aliado ao ambiente sepulcral da casa, se tornou ensurdecedor. Pela minha memória passaram as imagens  que julgava esquecidas: o meu quarto de brinquedos, agora vazio, e no qual tive que entrar quase de gatas, o vizinho laboratório do Z., devidamente localizado nas mansardas - não fosse o nosso “Professor Pardal” provocar alguma explosão e assim só o telhado é que ia pelos ares -, as escadas em caracol que se desenvolviam sob a clarabóia e nos conduziram à zona nobre dos quartos. Fechei os olhos; vi o psiché do quarto dos pais, vi-me a abrir caixas e a desfazer colares cujas contas rolavam por todo o lado, vi-me fazer uma grande birra no quarto contíguo e a levar uns sopapos que me deixaram calada (soluçante, infeliz, mas calada); vi-me nesse mesmo quarto, aborrecida de morte durante os trinta dias que durou a cura da minha hepatite.
A sala de jantar “dos dias de festa” estava vazia  mas via-a tal qual era, com a adjacente “alcova” que servia de sala de estar e onde se localizou durante muitos anos a televisão (que só se via à noite e depois de jantar). Pelas sacadas abertas de par em par o vento fresco do fim da tarde trouxe consigo o odor da madressilva que cobria a varanda; apanhei algumas flores e juntei-as às glicínias que já tinha colhido no quintal da frente. Da varanda avistei a antiga horta e o “coradouro” que se usava para branquear a roupa, nos tempos pré-jurássicos em que não tínhamos máquina da roupa. Apercebi-me de que o antigo horto já não existia, amputação provocada pela VCI havia já um ror de anos, e agora quase (quase…) se podia ver a casa “nova”, aquela onde vivia a Mãe, distante apenas umas centenas de metros mas que para mim eram umas centenas de décadas.

 
 
 
 
 
 
 


Baixei ao piso da cozinha e da sala de jantar do dia a dia. Já trazia o jantar pronto, foi só pôr a mesa e esperar a chegada dos outros. Liguei um velho rádio que, depois de uma tosse roufenha, de repente, começou a transmitir …  o “Em Órbita”!!! Não quis crer no que estava a ouvir, mas sim, era o Em Órbita, que passava Leonard Cohen e Simon&Garfunkel, Joan Baez, Bob Dylon. O mesmo que anunciara “in ilo tempore” que Strangers in the Night tinha sido o pior disco do ano, para enorme desgosto da Naná…
Desisti de entender e fui trauteando as letras que agora já eram minhas velhas conhecidas, não representando Cohen nenhum papão que me fizesse comer a sopa como nos tempos do velhinho Em Órbita.

Um telefone preto de baquelite jazia no chão. O número 40687 nele inscrito fez-me recordar os tempos em que para ligar para aos Padrinhos tínhamos que passar pela telefonista que, numa voz nasalada perguntava “982?...” devendo nós acrescentar os dígitos em falta, que inicialmente eram três e depois passaram a quatro. E tínhamos sorte porque de casa dos Padrinhos tempos houve em que só se levantava o auscultador de baquelite e a telefonista fazia o trabalho todo (suponho que, nas horas vagas, também ouvisse algumas conversas…).
“Os outros” foram chegando. Primeiro a Naná, acompanhado do Gastão, não o do Patinhas, mas sim o seu gato preto, que se soltou desvairado correndo pela casa. “O que tu queres sei eu”, pensei com os meus botões, ao mesmo tempo que ficava aliviada pois a perspectiva de maus encontros não era descabida.

Veio depois o Z., que trouxe um bom humor alucinante e começou a acompanhar a rádio, com um pau de vassoura a fazer de microfone, cantando “Capri, c’est fini”, do cantor que apelidara de Erva da Vila (Hervé Vilard); nessa noite não passaram nada do Gato Esteves, mas mesmo assim, tivemos direito à Desfolhada (essa cantada a “mielas” comigo) à Festa da Vida, ao Cavalo à Solta, ao Corre Nina, ao El-Rei D. Sebastião, simultaneamente cantadas e orquestradas pelo Z.. 

 

Mais tarde chegou o primogénito. Trazia um Barca Velha de 95 e um Porto Vintage (ou LBV ou simplesmente envelhecido) de 1977, duas garrafas que, no seu conjunto, deveriam ter um teor alcoólico de 50ºC. “Menino, «ganda» bêbeda! Deve ser para voltarmos para casa da Mãe a rastejar, isto se não formos presos antes de lá chegarmos! Não sei se ainda te lembras, mas transitar em estado de alcoolémia é crime de perigo e isso deve aplicar-se a «peões rastejantes»!”. Encolheu os ombros, olhou-me e sorriu, convocando todo o seu charme de outrora – “Sabes mana, este dia não vai repetir-se…”




 
Desembrulhei o farnel – uma sopa rica de peixe, que junta os sabores do mar com os do campo e com a qual iniciei as minhas lides bloguísticas há precisamente dois anos e um strudel de cerejas, receita adaptada da minha mãe para receber o primogénito nos seus regressos de Coimbra.

Sentamo-nos à volta da mesa e fomos comendo e bebendo devagar, falando todos ao mesmo tempo, muitas vezes perguntando uns aos outros “Lembras-te de quando…?”  E todos nos lembrávamos de quando, como, onde, em que dia, a hora e minuto, a parte estranha é que as nossas memórias raramente coincidiam no dia ou na hora ou no minuto... É verdade também que todos éramos  um bocadinhos “estranhos” para essa coisa das datas – a bem dizer, éramos tipo “nerd” ou “weird” (não me ocorre definição em português), e, enquanto a discussão prosseguia, liderada com quatro campeonatos de avanço pelo primogénito, que, muito apropriadamente, recitava de cor os anos em que o FCP tinha sido campeão nacional, respectivos treinadores e mais não sei quantos detalhes, alheei-me um bocado e pus-me a imaginar uma equipa de profilers do FBI a fazer-nos o perfil psicológico (o que só poderia acontecer por pura recreação porque por muito "nerds" que fossemos, psiocopatas não éramos de certeza).
O meu devaneio foi subitamente interrompido por um latido impaciente. Ficámos imóveis, eu fria e a transpirar, com o coração a 250 ao minuto. Da janela, uma sombra negra saltou para a sala e caiu aos pés do primogénito. Incrédulos, balbuciamos em uníssono “Flock?!...” Sim, era o velho Flock, uma massa de caracóis pretos com peito branco, um misto de caniche, cão de água, cruzado certamente com uma refeirice qualquer. O Flock que dormia por baixo da cama do meu irmão mais velho e que rosnava ameaçador (ele, que fugia de ratos…) quando alguém invadia aqueles domínios sagrados. O Flock que arrancava as couves da horta e puxava os lençóis do coradouro para os depositar à porta de casa como forma de protesto por ficar fora de casa em dia de visitas para jantar (hoje cantaria a Grândola…); o Flock que, mudados de casa, fugindo aos novos donos, persistiu uns dois anos em ir visitar-nos na nova morada, apesar de nunca lá ter estado.  Sim, era ele mesmo, e todos nós chorámos, por tudo aquilo que o pobre cão representava e convocava do nosso passado. Recordamos aquele o dia em que a cafeteira do café explodiu (porque a Naná se esquecera de lhe por água…) e o Flock saltou pela janela da cozinha e fugiu para o fundo do quintal onde ficou durante muuuuiiito tempo ou aqueloutro em que os manos decidiram dar a provar ao pobre Flock, criatura crédula e amante dos donos, uma colher de aguardente… Deve haver histórias destas em todas as famílias mas as nossas são, como podem imaginar, únicas.
De repente, surgiu o gato preto, cheio de teias de aranha e pó, encrespado e com uma cauda eriçada, bufando furiosamente ao invasor que lhe roubava protagonismo. O velho Flock aninhou-se por baixo da cadeira do antigo dono e assim ficou de orelha murcha.
Rimos até às lágrimas e já não sabíamos se era das recordações, do confronto dos animais, se da mistura do Barca Velha 95 com o LBV de 1977…

Saímos para o apendre e ficamos a observar a gloriosa lua cheia que se erguia e se ia impondo no céu à nossa frente, prenha e avermelhada como costumam ser as luas dos luares de Verão.
Lá dentro, a telefonia passava Forever Young, de Bob Dylon, mas cantada por Joan Baez, naquela voz pura e arrebatadora, cuja letra me ecoava pelo pensamento, e desejei (voltar a) ter aquela juventude interior e de espírito, que, por muitos anos que vá somando, me ajudará a manter jovem, sonhadora, idealista e generosa.
Em silêncio, envolvidos pelos cheiros da noite de verão, e guiados pelo luar, saímos da casa velha, da qual nos despedimos sabendo que os quatro juntos não mais lá iríamos estar novamente.


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Passemos então às receitas.

SOPA DE PEIXE

A receita segue a aqui publicada em 15/6/2011, com a seguinte diferença - como o peixe usado foi a pescada, que é pouco gorda, não a cozi na água da sopa e usei um caldo de peixe fortemente concentrado (feito em casa e previamente congelado). Aos vegetais  acrescentei uma mão cheia de feijão verde. Cozi a pescada à parte. No momento de servir a sopa, juntei pequenos cubos de pescada e, em vez da massa ou do pão, usei umas sobras de arroz de peixe, confeccionado segundo a receita da Naná.



STRUDEL DE CEREJAS
A receita segue a aqui publicada na 6ª Edição CPJ, com a diferença de que, em vez de maçã, confeccionei o strudel com cerejas e substituí as nozes por amêndoas em pequenos palitos.
 

 
 
 










 



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