domingo, 9 de junho de 2013

VAMOS FAZER BOLACHAS ... COM ALGUÉM DE OUTRA GERAÇÃO

 
Meninos, vêm aí os avós, vamos fazer bolachas?!
Mal tinha acabado de proferir estas palavras, respirei fundo, enchi de ar o peito e enchi-me a mim de coragem, toda a coragem necessária para fazer bolachas, algo que não casa bem comigo, e para convocar outras gerações para a cozinha, daquelas gerações que adoram meter as mãos na massa, não propriamente para a trabalhar, antes para sujar mãos, caras, bibes, roupa, cabelos e tudo o que estiver à volta….


Enquanto escolhia as receitas de bolachas mais alinhadas com o meu regime alimentar – ou seja, sem gorduras animais ou hidrogenadas, nem açúcar – e preparava os utensílios (taças, colher de pau, tabuleiros, rolo de massa) e os ingredientes necessários, vi-me rodeada de quatro mãos que pareciam dez lagartixas que desalinhavam tudo o que eu ia arrumando.


Voltei a respirar fundo e olhei aquelas caras matreiras cujos sorrisos me acariciavam o coração e pus um ponto de ordem com um ríspido “Então! Meninos!”. Acanharam-se, simulando uma vergonha que eu bem sabia não ser genuína.
Decidi que a melhor maneira de os vencer seria juntar-me a eles e defini que nós, os Três da Vida Airada, tínhamos um Projecto muito importante (preparar o lanche para os avós) que teria que estar pronto a horas, e estabeleci que eu seria o comandante–em-chefe responsável pela execução do projecto e pelas partes mais perigosas do mesmo – tais como as que implicassem forno -, “chocolate” seria instrumentista, na medida em que me iria passando os utensílios, e “copinho de leite” leria a receita, o que fez naquele ritmo soluçante característico de quem aprendeu a juntar letras há pouco tempo.


A coisa melhorou. Realisticamente, eu sabia que a partir daí só poderia piorar… mas enquanto estiveram concentrados nas suas tarefas, com o sentido de urgência e importância de uma verdadeira missão, as bolachas foram tomando forma até entrarem no forno. O tempo de cozedura e de arrefecimento foram suficientes para limpar restos de massa que se haviam infiltrado nas unhas, cabelos, cotovelos, nariz, mudar de roupa, pentear e pôr a mesa, para o que convoquei nova Missão e definição de tarefas.

 


Enquanto isso, “copinho de leite” ia-me contando que tinha aprendido umas anedotas novas “super fixes” para contar ao avô – mas só ao avô, porque eram anedotas “só p’ra homens”, frisava muito sério e compenetrado do alto dos seus longos, vividos e experimentados seis anos, e “chocolate“, domando a rebelde cabeleira frisada de caracóis, fazia um totó no alto da cabeça com um lacinho cor-de-rosa e torcia-se em frente do espelho para apanhar o seu melhor ângulo.
Lavados e limpos, sentaram-se no sofá à espera dos avós, enquanto liam os livros de contos e da Enid Blyton que já tinham sido meus e, antes disso, de meus irmãos.
Olhei-os, um louro e branco, outra morena e cabelos escuros, cabeças recolhidas na leitura atenta das aventuras que os faziam sonhar quando partiam para férias no campo, em cada da outra avó.


A campainha tocou e três vozes gritaram em uníssono – “Chegaram os avós!”

















 
 
 








A partir daí, o resto da tarde passou-se entre abraços, mimos, “anedotas d’homens” sussurradas por um, que não as percebia, a outro que, mesmo que quisesse percebê-las, não as ouvia, brincadeiras e claro, as nossas bolachas feitas com todo o amor e carinho para receber os avós, acompanhadas de um verdadeiro chá inglês (chocolate caseiro para “copinho  de leite” e “chocolate”), a que se juntaram outras gulodices trazidas pelos avós, mas só para os netos.


No fim desse longo dia, depois de todos os mimos dos avós queridos e partidos estes, à hora de deitar, entre os beijos ensonados de boa noite, comentava-me “copinho de leite” que “Foi um dia tão bom, tão bom, fizemos tanta coisa que nem tenho pena de não termos televisão”.
 
 
Vejo-os adormecidos, livros ainda agarrados na ponta dos dedos, abraçados num amor fraternal puro que fazia esquecer as muitas patifarias e gritarias de todos os santos dias da sua infância.
 
Vejo-os sempre juntos, nas brincadeiras da praia, os mergulhos no mar que deixavam os cabelos de “copinho de leite” agarrados à cabeça como um “capa-sete” (como ele escrevia).
 
Ouço “copinho de leite” responder “Salgada!” (!) quando, depois de ele ter ido ao banho, lhe perguntava como estava a água.
 
Relembro a invariável resposta de “copinho de leite” no jogo da barquinha quando chegávamos à letra “C” – aqui vem uma barquinha carregadinha de “Çapatos”.
 
Sorrio quando “copinho de leite”, a quem lhe perguntava o nome, respondia: “x”, somos os quatro “x”, sabe? O avô, o meu pai, eu e o “x” da telenovela…”
 
Vejo-me ao lado de “copinho de leite” a posar para uma fotografia, os nossos olhos da mesma cor doce de mel, tão doce como os mimos que trocávamos.
 
Vejo “chocolate” acabada de levantar, cabelos em desalinho e algo mal-humorada, e “copinho de leite” a provocá-la “Ui! O teu cabelo parece mesmo um relógio estragado!”
 
Relembro “chocolate” a afagar os meus vestidos plissados ou franzidos e a dizer “roda, roda! Tão lindo!”
 
 
E sei que irei conservar estas imagens para sempre no fundo de um cofre feito do mais puro cristal que há na terra e que tem a forma do meu coração.
 
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Este post representa uma dupla participação – no desafio da edição em curso do Convidei para Jantar, de que este blogue é anfitrião, e no Vamos fazer bolachas, patrocinado pelo blog Cravo e canela, este mês dedicado às crianças.
Juntei as bolachas com as crianças, num registo singular e muito pessoal.
A história, essa, é uma ficção baseada em acontecimentos reais…

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E agora as receitas. Já aqui confessei que "a minha praia" não passa por fazer bolachas. Tive que procurar muito para encontrar algo que estivesse em consonância com o meu regime alimentar.

Duas das receitas (bolinhos de côco e corações de aveia) são do blog Nem acredito que é saudável, mas mesmo assim fiz algumas adaptações (algumas devido à falta de matéria prima). A receita dos bolinhos de azeite foi retirada do livro Cozinha Alentejana, de Alfredo Saramago e Manuel Fialho, já aqui referido bastantes vezes.

Ingredientes 3 claras de ovo; 2 colheres de sopa de geleia de arroz; 160 gr de côco ralado light (que no caso, por falta de controlo de stocks, foi substituído em - grande -  parte por farinha de amêndoa); Confecção Bater as claras em castelo firme. juntar a geleia e o côco, até formar uma pasta homogénea. Formar bolinhas que vão cozer em forno pré-aquecido cerca de 15 minutos.
Receita original aqui.

 
Ingredientes: A) 1 chávena de chá de farinha de espelta, de flocos de aveia grossos e  1/2 chávena de côco light ralado; pitada de sal; 1 c. chá de bicarbonato e de canela; B) 1 chávena de chá de maçã ralada (no original era 1 chávena de cenoura ralada); 1 chávena de café de óleo de girassol; 3 colheres de gelado de geleia de arroz. Confecção: Misturar os ingredientes de A) muito bem e incorporar depois os ingredientes de(B), até estarem completamente misturados. Enformar como se quiser e levar ao forno pré-aquecido cozer durante cerca de 45 minutos.
 

Ingredientes: 250ml de azeite, 2 saquetas de fermento biológico, 500gr de farinha biológica T65, um pouco de água morna. Confecção: Aquecer o azeite até ferver com uma côdea de pão encharcada em vinagre para retirar qualquer sabor mais forte; numa chávena misturar o fermento com a água morna (com cuidado porque borbulha e pode vir por fora da chávena); misturar o fermento assim dissolvido com o azeite quente, colocar o líquido na máquina de fazer pão e acrescentar a farinha. Programar um programa rápido (15 minutos a amassar) que se interrompe antes de começar a levedar para voltar a bater 15 minutos. Levedar de seguida, duas vezes (8+8 minutos). Desligar a máquina, colocar em formas e levar ao forno a cozer (cerca de 45 minutos ( uma hora). A textura final é muito parecida com areias. É forte e deve casar bem com compota.
 



 

1 comentário:

  1. OLÁ!
    Gostei tanto desse dia passado entre gerações e relembrei as tardes passadas a fazer bolachas com o meu filho quando ele era dessas idades. Para quem diz que bolachas não é a sua praia, fazer três receitas diferentes é de uma enorme coragem. Cada uma melhor que a outra e a experimentar.
    Bjnhos,
    Manela

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