domingo, 17 de julho de 2011

LOVE STORY



Um chef, do melhor restaurante parisiense da segunda metade de oitocentos, é, surpreendentemente, uma mulher que tem a capacidade de transformar cada refeição numa história de amor.
Em 1871, na sequência da Comuna de Paris, uma francesa refugia-se numa povoação costeira da fria, espartana e pobre Noruega – então ainda anexada à Suécia – onde é acolhida por duas piedosas irmãs, cujas vidas, dedicadas a propagar o particular credo do Deão, seu Pai já falecido, e pelo qual renunciaram à normalidade do futuro de meninas da sua condição e particular beleza – amor, casamento, maternidade… -, vão ser suavemente abaladas pela força telúrica dos cozinhados de Babette, a nova criada. Aos poucos, a vida das irmãs, da congregação que orientam, dos pobres que alimentam, vê-se impregnada do conforto dos cozinhados da criada acolhida por via do pedido de um antigo admirador de uma das manas. Não só a qualidade geral da comida melhora, algo que até os pobres notam, por oposição às papas sem graça cozinhadas pelas irmãs, e isto sem renunciar à espartana parcimónia do mais rigoroso fervor luterano, como as poupanças aumentam, pois a criada tem o condão de regatear as compras, que acabam por ficar por uma bagatela.
Doze anos passam.
Num dia de Verão, a rotineira existência da vila é abalada pela chegada de uma carta, oriunda de França, destinada a Babette – é o aviso de que o bilhete de lotaria, religiosamente comprado todos os anos, era, finalmente vencedor, o que transforma Babette numa milionária possuidora de 10.000 francos, invertendo posições com as até então suas patroas.
Mas Babette investe o seu ganho num jantar francês que insiste em oferecer às manas e demais congregação, no dia do centenário do nascimento do Deão. Algo que só a muito custo consegue, apesar dos medos e desconfianças das irmãs, cuja ideia de festa se resumia a biscoitos com café…
Os dias que antecedem o jantar passam num misterioso frenesim – chegam caixas com garrafas (oh, suprema heresia, é vinho!), copos de cristal, blocos de gelo, uma enorme tartaruga viva…
E, no dia do jantar, quando todos os Irmãos e Irmãs da piedosa congregação juraram que nem uma vez se refeririam à comida ou à bebida, pois também nas Bodas de Canã se comeu e bebeu, apenas o convidado de honra, o General – antigo pretendente de uma das irmãs – homem do mundo, vivido em Paris, aprecia devidamente cada prato, e saboreia cada copo … Sim porque a extraordinária Veuve Cliquot de 1860 é considerada um tipo de limonada interessante pelos demais comensais…
À medida que o jantar avança, soltam-se as palavras há muito presas nas gargantas dos Irmãos, são pedidas desculpas por actos menos reflectidos e dignos do passado, pelas quezílias e embirrações do presente, rememorados os milagres do Deão, e todos se sentem crianças ou jovens, puros – ou nem tanto – como quando a fé os havia reunido em torno do Deão.
E só o General, homem do mundo, vivido, faz jus ao jantar, apenas comparável àquele que, muitos anos antes, havia comido no melhor restaurante de Paris, o Café Anglais, cujo chef - curiosamente, uma mulher, Babette de seu nome… - tinha a capacidade de transformar cada refeição numa história de amor...

A Festa de Babette é um conto escrito por Karen Blixen, escritora dinamarquesa tornada famosa pelo filme África Minha, de 1985, que transpõe para o grande ecrã o livro homónimo em que Blixen relata a sua saga de fazendeira na África Oriental do primeiro quartel do século XX.
O livro é, de longe, melhor que o filme – desde logo Dennis Finch-Hutton não tem no livro o relevo que lhe é atribuído no filme, mas havia que fazer de Redford (e não da fabulosa Meryl Streep) cabeça de cartaz…
A Festa de Babette deu origem ao filme dinamarquês homónimo de 1987, vencedor do Óscar pelo Melhor Filme Estrangeiro. Não sei se foi o justo vencedor porque não conheço os demais concorrentes, mas sei que gostei mais do que de África Minha: adorei a fidelidade ao original, a fotografia hiper-realista que nos faz viajar da pintura de genre flamenga para flamejantes naturezas mortas, as personagens plenas de ascetismo luterano, as paisagens desoladas do fiorde norueguês (que no filme se transforma na dinamarquesa Jutlândia), tão contrastante com o nosso plácido catolicismo, tão contemporizador, por via da confissão e da bula, com o pecado e a tentação…
Tudo isto para concluir que a comida pode ser uma história de amor – não sempre, porque o amor consome e é fogo que arde sem se ver – capaz de, ao fazer-nos mais felizes, mudar as nossas vidas e as daqueles que nos rodeiam.
Vejam o filme, leiam toda a Karen Blixen, façam de um jantar uma história de amor para ser contada, recontada e rememorada.
E sintam-se felizes por terem o poder de fazer mais felizes aqueles que amam.

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