quarta-feira, 29 de maio de 2013

UM CHÁ NO JARDIM DO BEM E DO MAL (*)


O blogue Cravo e Canela completa este mês dois anos e a sua criadora organizou uma Tea Party para a qual fomos convidados na condição de levarmos uma multa (digamos, uma prenda para o blogue aniversariante!)
A minha multa é uma mousse de chocolate.
Só que não é uma mousse qualquer - é uma receita da Natália Rodrigues, que aprendi num Workshop de Menus festivos no Instituto Macrobiótico - o mesmo é dizer que não leva açúcar (nem ovos, nem manteiga...). Mas é boa. Muito boa, mesmo e facílima de preparar. E, fresquinha, saberá bem na Tea Party.







Ingredientes
100gr de chocolate com pelo menos 70% de cacau
500gr de sobremesa de soja com sabor de chocolate
1 pacote de natas de soja soyatoo (próprias para bater)
2 colheres de sopa de geleia de arroz
Preparação
Derreter o chocolate em banho maria, juntar à sobremesa de soja, mexendo bem.
Bater as natas com a geleia de arroz até obter um creme fofo tipo chantlly.
Envolver as natas no creme de chocolate e levar ao frio.

Opção
Preparei a mousse em doses individuais, em camadas que, de baixo para cima, tinham adicionadas  alfazema, mirtilos, amoras, pistachios, raspa de laranja e pimenta rosa.
Servi com uma taça de morangos e com um cálice de água de flor de laranjeira.




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A receita serviria igualmente para participar na iniciativa Passatempo Santa Gula e [Limited Edition] se acaso eu estivesse inscrita nas redes sociais. Como não estou, fica apenas o apontamento e a história que já estava escrita (e que justifica o título do Post, desadequado para uma inocente Tea Party...).



Mousse…

Só o som, sussurrado e ciciado, desta palavra sugere uma volúpia que, devagar e insidiosamente, se apodera dos sentidos, sem apelo. Mas com agravo. E, certamente, muito agrado.


A mousse não é para ser comida, é para ser degustada com toda a calma do mundo, para se derreter e fundir em nós, numa simbiose mais-que-perfeita. Sem apelo. Só com (mais) agravo…

Se a mousse, para além de o ser, tiver como ingrediente principal o chocolate, é o nirvana das mousses - come-se devagar, em colheradas pequenas e ainda mais pequenas trincadelas, de maneira a prolongar o prazer do sabor e da textura, num after taste etéreo e quase irreal.


Take 1 – o vermelho da luxúria

A mousse e o chocolate bastam-se por si próprios mas, se se quiser prolongar, antecipando, o prazer da mousse, sugiro que, antes desta, se degustem uns vermelhos, maduros e sumarentos morangos, cuja forma de coração nos promete um amor que, se não é eterno, terreno é de certeza… E nada como mordê-los devagar, começando pela ponta do seu lindo coração e deixando escorrer, pela garganta sequiosa, o sumo vermelho cor de vida e de paixão.


Após este preliminar – dispensável, como o serão todos os preliminares numa versão economicista da vida, mas essencial para quem a quiser gozar ao máximo – proceda-se à abertura das hostilidades e ataque-se o objecto da devoção, mas doucement, trés doucement, que nestas coisas os franceses são mestres…

Take 2 – uma ira cor-de-rosa

Já incendiados pelas chamas vermelhas dos morangos, a mousse de chocolate seria mais do que suficiente para encher os sentidos do paladar , do olfacto e da visão. Espicacemo-los, no entanto, a estes e aos outros dois. E juntemos, assim, umas bagas de pimenta rosa na primeira camada da mousse. Cada baga que se trinca estilhaça-se na nossa boca, confunde-nos a audição e espalha-nos pelo nosso corpo um calor, uma ira e outras emoções que se querem apaziguadas pelo tacto…





Take 3 – uma soberba cítrica

Tempo para acalmar ardores inflamados com um shot de sumidades da virginal flor de laranjeira que se junta com o subtil e exótico sabor da raspa de umalaranja. Refrescado o calor rosáceo da pimenta e purificado o palato, julgamo-nos únicos no mundo e, qual Cortez ou Magalhães, seus conquistadores e circum-navegadores, apesar de apenas estarmos a ser conquistados e vencidos por uma simples mousse...







Take 4 – a inveja é verde?...

Quase satisfeitos avançamos, no entanto, gulosos, na investigação das profundezas da mousse, buscando novidades que tardam em chegar – só à segunda investida, rápida e imperiosa, nos surpreende o sabor crocante de algo que, a custo, identificamos como pistachios, ligeiramente salgados, cujo verde, qual semáforo, sinaliza a esperança de que algo melhor estará para acontecer; e, olhando à nossa volta, reparamos que o comensal ao nosso lado ainda não acabou os morangos… e ficamos verdes de inveja pelos prazeres que ainda lhe faltam conquistar e que para nós já estão consumados.




Take 5 – uma gula de um roxo apopléctico

Espicaçados pelo sal, elemento perturbador numa mousse que se quer doce, repetimos, queremos mais, repetimos, queremos mais, e repetimos e queremos mais … até encontrar umas amoras silvestres, roxas cor de outra paixão, que devoramos com sofreguidão.





Take 6 – o azul gelado e ácido da avareza
Queremos mais e só para nós, arrebanhamos todos os pequenos restos da mousse, subtraindo-os e escondendo-os aos demais convivas, mas o chocolate só não chega ... eis senão quando surgem uns mirtilos azuis, frios e ácidos que nos apaziguam, e percebendo então que já não há mais surpresas, sucumbimos, vencidos pelo calor denso do chocolate ou quiçá pelo peso insuportável dos pecados mortais incorridos...



Take 7 – a preguiça é doce e tem cheiro e cor de alfazema

Mas, afinal, a mousse ainda nos reserva uma derradeira oferenda: na sua camada última, escondem-se uns pequenos grãos cor de lavanda e que mais não são do que flores de alfazema, cujo sabor acre contrasta com o doce e pacificador perfume que delas emana. Inebriados e entontecidos pela fragância calma da lavanda, caímos num torpor semi-inconsciente que se estende do cérebro a todo o corpo.
E, no rescaldo da suave volúpia da mousse de chocolate, deixamo-nos cair na mais doce e merecida das preguiças.


(*) Título inspirado aqui Meia Noite no Jardim do Bem e do mal – um Clint Eastwood no seu melhor...

4 comentários:

  1. Olá Paula!
    Muito obrigada pela tua participação e por esta receita diferente e mais saudável de mousse de chocolate. Adorei a ideia das camadas de sabor.
    Bjnhos,
    Manela

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  2. Fiz parte do pequeno grupo que teve a oportunidade, e a felicidade, de degustar esta maravilhosa mousse.
    Estava deliciosa, plena de sabores exóticos mas que se conjugavam na perfeição, muito imaginativa (algo a que a P. já nos habituou), elegante e constituiu um divertido "exercicio de adivinhação" em fim de repasto, dado que, se alguns dos ingredientes eram fáceis de identificar, outros nem tanto. Enquanto espero por novas surpresas, vou copiando esta....
    Parabéns.

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    1. Cabe referir que, apesar de a apreciação geral ter sido positiva, a maior parte das "cobaias" estranhou (sem depois ter entranhado...) a alfazema, tendo a maioria achado que estava a mais. Quanto à água de flor de laranjeira, por muito virginal que pudesse ser, prefeririam ter degustado um shot a sério de vodka ou, quando muito, um licor de Singeverga...
      Ou seja, mais um prego no caixão dos pecados...

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  3. gostei muito da receita, mesmo que não participe no passatempo! obrigada na mesma :)

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