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sábado, 18 de maio de 2013

18 DE MAIO - DIA INTERNACIONAL DOS MUSEUS

Celebra-se hoje o Dia Internacional dos Museus. Quase todos os museus nacionais tiveram uma programação especial e horário alargado até às 24horas, tudo completamente grátis, para além de livros com descontos, a preços muito convidativos.
Não podendo ir a todos, escolhi dois - O Museu Arpad Szenes Vieira da Silva e o Museu do Azulejo.

 
No primeiro, pude beneficiar duma visita guiada da exposição retrospectiva da obra de Vieira da Silva (que esteve anteriormente no Brasil, mas aqui enormemente enriquecida com espólio local da pintora e de artistas que com ela se cruzaram durante a sua permanência no Brasil) e assistir à leitura do poema "Memória de um pintor desconhecido",  de Mário Dionísio, magistralmente interpretada por Jorge Silva Melo.
 


A obra de Vieira da Silva é por demais conhecida, mas será que o é a sua vida de apátrida, durante quase trinta anos? A pintora casou com Arpad, húngaro; ao tempo, a mulher portuguesa que casasse com um estrangeiro perdia automaticamente a nacionalidade portuguesa porque adquiriria a do marido (imagino - ou antes, dado o desenrolar da história, quero acreditar - que só assim não seria se a lei nacional do marido não previsse essa aquisição, caso em que se manteria a nacionalidade originária). Porque Arpad era judeu, teve que fugir da Hungria e perdeu a nacionalidade, perca que se comunicou a sua mulher. Em 1939/40, o Estado Português recusou-lhes a nacionalidade portuguesa. Dados os ventos de guerra que assolavam a Europa e a incerteza da posição de Portugal, o casal emigrou para o Brasil, onde passou 7 anos sem nacionalidade! No pós 2ª Guerra, tentaram, de novo, a atribuição de nacionalidade portuguesa e, mais uma vez, não conseguiram, agora porque Arpad era oriundo de um país da Cortina de Ferro, ainda que este tão pouco lhe reconhecesse a nacionalidade... Até que, nos anos 60, o Estado Francês lhes concedeu a nacionalidade francesa.
Não tenho palavras para expressar a vergonha que sinto por isto ter acontecido nem consigo imaginar como terá sido viver como pária e apátrida - sem chão, sem raízes, sem pertença...
 
Ficam aqui duas belas fotos que retratam o exterior de uma das mais belas praças de Lisboa (o jardim das Amoreiras) vistas do interior do museu.








 
 





Visitem-no, o Museu está a atravessar dificuldades e precisa de público para sobreviver e, afinal, uma entrada custa menos do que um bilhete de cinema...


A segunda parte do Programa foi no Museu do Azulejo - o único no mundo dedicado ao tema.
95% dos visitantes são estrangeiros. Isso mesmo, 95%, apesar de o museu ser gratuito aos domingos de manhã até às 14h e haver visitas guiadas só para portugueses que são grátis. O Museu tem igualmente um restaurante muito simpático, podendo no Verão ser usado o jardim interior para esse efeito. Além disso, fica num convento manuelino, fundado pela Rainha  D. Leonor, que para aí se retirou quando enviuvou, e que sobreviveu ao terramoto. Tudo razões mais do que suficientes para o visitar.
Aposentos de D.Leonor . tecto original
Aposentos de D.Leonor . chão original
(e instalação de novos ceramistas)









Hoje tinha um programa super-intenso (notava-se no cansaço dos funcionários e voluntários, absolutamente inexcedíveis) com visita à colecção, um concerto de guitarra clássica, um missa crioula e ainda a um espectáculo de  mornas e coladeras (não assisti).
Houve igualmente a inauguração de exposição colectiva de jovens artistas que trabalharam em Alcobaça tendo produzido um acervo super-interessante, de que deixo algumas fotos. 

Alguns nomes são conhecidos, outros nem tanto, mas inserem-se certamente numa corrente de arte popular que está a dar frutos e oxalá tenham tanto sucesso como a Joana Vasconcelos.



Aprendi que o barro preto não é feito com um tipo especial de argila mas apenas escurece porque durante o processo de cozedura se colocam no forno materiais que absorvem a água e tornam o barro negro (por exemplo, giestas...)
















E também aprendi que a porcelana chinesa "bago de arroz" é mesmo feita com bagos de arroz, que se colocam na massa e que, quais pipocas, "incham" durante a cozedura, adquirindo aquela transparência muito própria.













A título de curiosidade, azulejo, etimologicamente, vem do árabe az-zulaiji, “pedrinhas lisas” e nada tem a ver com a cor azul. O facto de na época de ouro do barroco se ter utilizado primordialmente o azul teve a ver com a influência da porcelana chinesa que utilizava tais cores e que acabou por ditar a moda em todos os países europeus que andaram pela China (veja-se a porcelana de Delft).

Ficam uns apontamentos de trabalhos influenciados pelas nipónicas camélias (japoneiras, na minha terra), as minhas flores favoritas.



O chão da sala do cadeiral é cubista avant la lettre"...


 
 
 












Amanhã de manhã, e todos os Domingos do ano, os museus são igualmente grátis. É aproveitar! Porque a cultura não ocupa lugar e pode ser grátis.
 
 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ESCONJURAR O "CARRAPATO"

Na terra onde cresci era tradição colocar um ramo de giestas amarelas, ditas "maias", nas portas da rua, e mesmo nas janelas, na noite de 30 de Abril, para enconjurar o "carrapato", expressão que abrangia não propriamente o bicharoco mas mais o demo e as coisas más em geral.
Não vá o diabo tecê-las, este ano tratei de enfeitar as portas de casa com giestas amarelas que fui ontem de propósito apanhar para o efeito.
E vade retro, ó "carrapato", que para pior já basta assim...
 
 
A porta principal


Nas traseiras
 

domingo, 14 de abril de 2013

CADERNO DE VIAGEM


Este Sábado fizemos uma actividade muito original com a Papa-Léguas - Sintra no meu caderno de viagens - que juntou uma viagem de combóio entre Lisboa e Sintra, um piquenique no Parque das Merendas, um passeio pedestre em Sintra e a experiência de registar tudo num pequeno “Caderno de Viagens”, primeiro como melhor nos aprouvesse e depois seguindo as indicações do Tiago.
O ponto de encontro foi a Estação neo-manuelina do Rossio. Eramos cinco, com o Tiago, dos quais quatro tinham experiência e jeito para o desenho. O quinto participante fez o que pode e o menos mal que conseguiu. Mas ficou a acreditar que podemos sempre fazer mais e chegar mais longe do que pensamos e irá insistir, embora a sua “praia” seja mesmo o registo escrito… O primeiro exercício decorreu ainda na Estação: cada um tinha que retratar um dos outros cinco participantes e só havia um desenho de cada um; no fim misturaram-se os cadernos e tínhamos que descobrir qual era o nosso retrato; o Tiago passou três vezes pelo seu retrato sem se reconhecer... Adivinhem quem desenhou o Tiago…

Já não viajava nesta linha há mais de vinte anos; no essencial está tudo na mesma – subúrbios encaixotados e marquises – mas as estações estão modernas e arejadas, os comboios também e já não se viajará no estribo como dantes.
Esta actividade pode ser um excelente exercício de “team building” ou uma maneira interessante de passar uma tarde com amigos (desde que não haja zangas por causa da falta de fidedignidade dos retratos…)

Aqui estão alguns registos do nosso Sábado 13 de Abril.
Eu (desenhada pela cara-metade)                                A bela estação do Rossio


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Sintra, à chegada.

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
No Parque das Merendas
 








 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
No Terreiro do Palácio da Vila
 
 
 
 
 
 
 
 

 


 






 
  
Na Álea Ferreira de Castro
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
A caminho do Castelo dos Mouros
 
 
 

sábado, 4 de agosto de 2012

UM PEQUENO PROGRAMA DE FÉRIAS

É Verão, está calor, é tempo de férias.
A cidade, cosmopolita, vibra com a diversidade de raças, pessoas, nacionalidades. Por todo o lado se ouvem línguas distintas, algumas conhecidas, outras em por isso. Vê-se de tudo e mais um par de botas.
A luz é única e as cores, fantásticas, são adoçadas pelos ocres e laranjas do pôr-do-sol, que se reflectem no casario que vai enlongecendo enquanto as ondas do rio brincam num vai-vem que reflecte o azul de um céu ainda claro.






São dez minutos de viagem e o catamaran deixa-nos na outra margem.


Corremos para o velho conhecido restaurante da ponta do cais, que já tem fila do lado de fora sendo enorme o chinfrim no lado de dentro. Mas sabemos ao que vamos e aqui não há ambientes zen nem veleidades de culinárias alternativas







O restaurante reflecte o ambiente cosmopolita que havíamos deixado para trás. São muitos os turistas.
Rapidamente somos atendidos. Como continuamos a saber ao que vamos, pedimos o costume - duas tulipas, pastéis de bacalhau, uma dose de sardinhas, uma de carapaus e salada mista.



Tudo perfeito. Tudo um bocadinho de mais.
Mas o velhinho barco de regresso - era o Madragoa, já não catamaran -, a busca do autocarro e o percurso final a pé ajudaram a digerir o jantar.


Podia ser em qualquer cidade do mundo num qualquer dia de férias estivais.
Mas foi singelamente na cidade que adoptei como minha e na qual me mexo e sinto como peixe na água. Longe de ser perfeita - muito longe, mesmo -, tem todas as condições para nela se poder viver com uma enorme qualidade. Eu sinto que a tenho.

Ficam as fotografias deste périplo que cheira sempre a férias porque só costumamos fazer estes programas quando estamos noutras cidades doutros países com os olhos bem abertos para apreciar os detalhes e degustar cada momento.

Um pormenor final: a noite estava perfeita, sem ponta de vento e a lua ainda cheia e esplendorosa exibia-se toda a sua plenitude!

ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE

A PROPÓSITO DAS GORDURAS

Escevi aqui, a propósito da cavala e outros peixes gordos, que as gorduras são essenciais às trocas celulares e ao funcionamento cerebral.
Não querendo armar-me em "experta" (não é erro, é gozar com a importação de anglicanismos - e outros - fazendo uma mistura do "expert" inglês com o nosso chico-esperto), recorro ao livro "Bíblia da Alimentação" de Patrick Holford (Editorial Presença, 1ª Edição, Maio 2000), onde, no Capítulo As Gorduras da Vida, se lê o seguinte:

"Considera-se ideal não consumir mais do que 20% do total de calorias sob a forma de gorduras. (...) As gorduras saturadas e mono-insaturadas não são nutrientes(...). Porém, as gorduras ou óleos polinsaturados são essenciais. Quase todos os alimentos que contêm  gorduras possuem uma mistura dos três tipos. (...)
Actualmente, a maioria dos especialistas concorda em que, do total das gorduras que ingerimos, as gorduras saturadas deveriam representar menos de um terço, pelo menos outro terço ser constituído por óleos polinsaturados que fornecem as duas gorduras essenciais: a família do ácido linoleico, conhecido pelo nome de Ómega 6, e a família do ácido alfa-linolénico, conhecido pelo nome de Ómega 3. O equílibrio ideal é de cerca de duas partes de Ómega 6 para uma parte de Ómega 3. Por conseguinte, o «perfil lipídico» ideal, baseado numa ingestão calórica total em que não mais de 20% provenha de gordura, poderia consisitir em: - 4% de Ómega 3; - 3% de Ómega 3; - 7% de gordura mono-insaturada; - 6% de gordura saturada.
(...)
A família das gorduras Ómega 6
A avó da família das gorduras Ómega 6 é o ácido-linoleico, que o organismo converte em ácido gama-linolénico (GLA). O óleo de onagra e o óleo de borragem são as fontes mais ricas que se conhece de GLA, e se os tomarmos sob a forma de suplementos necessitamos de menos óleo para obter gorduras Ómega 6.
(...)
O GLA é posteriormente convertido em DGLA (ácido di-homo gama-linolénico) e, depois, em prostaglandinas que são substâncias extremamente activas semelhantes a hormonas. O tipo que é produzido a partir destes óleos Ómega 6 chama-se prostaglandinas da série 1. Mantêm o sangue fluido, impedidno coágulos e bloqueios, relaxam os vasos sanguíneos, diminuem a inflamação e as dores, melhoram a função nervosa e imunitária e ajudam ao funcionamento das insulinas, que é boa  para o equilíbrio da açúcar no sangue.
(...)
Esta família de gorduras provêm exclusivamente de sementes e dos seus óleos. As\ melhores fontes são o cânhamo, a abóbora, o girassol, o cártamo, o sésamo, o milho, os frutos secos, a soja e o óleo de gérmen  de trigo.
(...)

A família das gorduras Ómega 3
A dieta moderna é muito provavelmente mais deficiente em gorduras Ómega 3 do que Ómega 6, porque a avó da família Ómega 3, o ácido alfa-linolénico, e os seus netos metabolicamente activos, o EPA (ácido eicosapentenóico) e o HDHA (ácido decosahexanóico), a partir dos quais são feitas as prostaglandinas da série 3 são mais insaturados e com mais tendência a deteriorar-se durante a confecção de alimentos. Estas gorduras, à medida que se convertem, no interior do organismo, em substâncias mais activas, tornam-se mais insaturadas e, geralmente, o termo que as designa torna-se mais comprido (por exemplo, o ácido oleico: um grau de insaturação; linoleico: dois graus de insaturação; linolénico: três graus deiinsaturação; eicosapentenóico: cinco graus de insaturação).
Podemos observar esta complexidade crescente ao avançarmos na cadeia alimentar. O plâncton, por exemplo, alimento essencial do peixe miúdo, é rico em ácido alfa - linolénico. Os peixes carnívoros como a cavala e o arenque, comem o peixe miúdo que converteu algum do seu ácido alfa-linolénico em gorduras mais complexas. Os peixes carnívoros continuam a conversão. As focas comem-nos e possuem a mais elevada concentração de EPA e de DHA. Finalmente, os Esqimós comem as focas e beneficiam de uma refeição já pronta de EPA e de DHA, a partir das quais podem fabricar com facilidade as prostaglandinas da série 3.
Estas prostaglandinas são essenciais a um funcionamento cerebral adequado que abarca a visão, a capacidade de aprender, a coordenação e o humor. Tal  como as prostaglandinas da série 1, aumentam a fluidez do sangue, além de controlarem o colesterol e os níveis de gordura no sangue, de melhorarem a função imunitária e o metabolismo, de reduzirem a inflamação e de manterem o equilíbrio hídrico.
Os melhores óleos de sementes para as gorduras Ómega 3 são de linhaça, de cânhamo e de abóbora. Tal como o óleo de onagra ultrapassa o primeiro estádio de "conversão" de ácido linoleico, se comer peixes carnívoros como a cavala, o arenque, o atum e o salmão, ou os seus óleos, pode ultrapassar os primeiros dois estádios de conversão do ácido alfa-linolénico e ir directamente para o EPA e o DHA. É por isso que os povos que comem peixe como os japoneses possuem três vezes mais gorduras Ómega 3 no seu corpo do que um amricano médio. As pessoas exclusivamente vegetarianas, que comem mais sementes e frutos secos, possuem duas vezes mais gorduras Ómega 3 do que um americano médio."

quinta-feira, 12 de julho de 2012

ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE

Fitas e leituras de Verão

Amei






Duras realidades que nos fazem querer  cortar os pulsos...

segunda-feira, 9 de julho de 2012

CONVIDEI PARA JANTAR UMA POP STAR DO SÉC. XVIIII

Quando soube o repto lançado este mês pela Rainha que vive No reino da Prússia, a convite da Ana, a minha escolha foi imediata, intuitiva e óbvia: só podia ser ele, um compositor magistral, uma pop star avant la lettre.



Tomei algum tempo a preparar a recepção. Relembrei tudo o que dele tinha lido e ouvido para melhor o receber.

Chegou atrasado, tal como  eu havia antecipado. Quando abri a porta, os olhos da vizinha do lado saltavam das órbitas. Lancei-lhe  “Oh Ana, sabe, hoje é noite de Mistery Murder Dinner e desta vez passa-se no século XVIII…” O sorriso  amarelo desmentiu a bondade da explicação. Também não era para menos: o meu convidado envergava uma casaca de seda acetinada azul turquesa, uma cabeleira empoada, sapatos de salto e fivela, corsário bem justo que morria numas ligas que encimavam umas belas meias de seda, duas rosetas rosadas nas faces e um sinal “a la Marilyn” numa das rosetas. Olá!!! Belo falatório no bairro para o resto do mês…
Rapidamente chegámos ao entendimento em francês, idioma que o meu convidado dominava na perfeição, apesar dos arcaísmos, e que eu ainda vou dominando, apesar da cada vez maior omnipresença do inglês e do espanhol.

Coloquei no leitor de CD alguns discos de compositores contemporâneos - Rodrigo Leão, em todas as variações e edições , os GNR dos tempos da Pronúncia do Norte, Leonard Cohen - cujos versos quis ler -, Paul Simon, ershwin. Música que, tal como a dele, é cerebral, clássica, e, simultaneamente, apaixonada e inovadora. Mas também o fiz ouvir umas pirosadas descomplexadas dos anos 70 e 80. Mostrou interesse nos compositores, fez perguntas, percorreu os discos todos e parou no Sargent Pepper’s  que mirou e remirou, comentando que não se lembrava deles no seu tempo.  Elucidei-o que, apesar das casacas e dos cabelos dos cavalheiros retratados na capa do disco, já tinham passado mais de duzentos anos desde o "seu" tempo e tentei, como pude, explicar-lhe o que era uma gravação, um CD, e por aí parei.
Ensinei-o a colocar os CDs e a controlar o comando. À medida que foi ouvindo a sua obra, emudeceu, sorriu, gargalhou histericamente, emudeceu novamente e, por fim, chorou. Chorámos os dois. Chorámos a sua morte precoce, que nos privou de muitas outras grandes peças musicais, já idealizadas e que apenas aguardavam a oportunidade de passarem à pauta; chorámos a música sublime que compôs na sua curta existência, que nos faz acreditar no Céu, no Paraíso, no Olimpo, na Perfeição, no Bem, que nos transporta para uma outra dimensão e nos faz esquecer a mesquinhez do dia a dia.

Perguntou-me se tinha cravo. Estava com uma ideias para uma pequena composição que me queria dedicar. Expliquei-lhe que não – talvez em casa do Frederico Lourenço. “Chama-se uma caleche e vamos a casa desse Frederico”  atirou-me, mas como não sou das relações do Frederico, a ajuda não era grande.
Na falta do cravo, escutámos as suites para o mesmo, de Händel. E, numa vertigem DJ desconhecia para mim, passei os Nocturnos de Chopin divinamente interpretados por Maria João Pires e, por último, de Puccini, aquela  área dilacerante em que M. Buterfly nos leva, literalmente, às lágrimas


Cansado, questionou-me então sobre o que tinha acontecido nos últimos duzentos e vinte anos.
Reflecti e acabei por lhe responder que nada. Nada que não se tivesse passado em todos os séculos que haviam precedido aquele em que ele vivera, adequadamente registados na Tragédia Grega e, mais recentemente, pelo Bardo da Velha Albion – ganância, inveja, ira, orgulho, avareza, gula; guerras – muitas e devastadoras, que por várias vezes levaram a Europa ao abismo. Mas também coisas boas: liberdade de pensamento e de expressão; acesso à educação; ascensão social. Melhores condições de higiene e salubridade que permitiram o aumento da esperança de vida e evitar morte prematuras como a sua.

O seu olhar não se fixava em coisa nenhuma e, da janela do  apartamento, seguia, indiscreto, as raparigas mais vistosas que iam passando na rua, inquirindo-me se era normal o estado de semi-nudez em que se exibiam; expliquei-lhe que uma das mudanças tinha, precisamente, a ver com a alteração do estatuto da mulher – depois de, há quinhentos anos ter ganho alma, tinha ganho (mas apenas nos últimos sessenta anos e na Europa, não em Portugal...) o direito de votar, de trabalhar, de ser autónoma, de ter uma carreira, de optar por casar ou não casar, de ter ou não ter filhos.
Franziu o sobrolho. Expliquei-lhe o que eram eleições universais (difícil, muito difícil...),  “ter uma carreira” e também que as opções de casamento e filhos se deviam a um medicamento, descoberto por  acaso nos anos 50 para tratar a infertilidade, vulgarmente chamado "pílula", que veio alterar significativamente a forma de organização social do mundo ocidental. Referi-lhe, de seguida, o que eram cuidados de saúde primários, que faziam com que a mortalidade quer das mulheres quer infantil tivesse baixado para números quase sem expressão, o que permitia às pessoas ter apenas dois filhos sem receio de ficar sem nenhum. Dor que ele havia conhecido na casa paterna, pois dos sete filhos nascidos, seus pais apenas viram sobreviver dois - o meu convidado e uma sua irmã.

Pensativamente, retorquiu-me: “E dizia-me a minha amiga que nada havia mudado! Mudou muita coisa e mudou muito, e para muito melhor, ao que vejo.” Tive que lhe dar razão. Na cegueira de desvalorizar o que temos e que damos por adquirido - não o sendo, de maneira nenhuma - não nos apercebemos de que viver no século XXI num País Ocidental é um privilégio sem qualquer possibilidade de comparação com os séculos passados e com aquilo que ainda agora se passa noutras latitudes e longitudes que, por não terem tido um Renascimento, ainda não saíram das suas Idades Médias.
Passámos à especialidade austríaca que havia preparado especialmente em sua honra – Apfelstrudel, ao que li, originária de Salzbourg, terra que o viu nascer.  Acompanhada de um Porto Vintage de 1999.
Mal provou o bolo mas deliciou-se com o vintage.


Soltou-se-lhe a fala e iniciou um monólogo alucinante de confidências. Como foi ser menino prodígio, treinado, educado e formatado por seu pai, ele próprio músico, compor a primeira sinfonia aos seis anos, ser a coqueluche das principais cortes europeias de então, incluindo a francesa cuja rainha, sua compatriota, lhe sobreviveu dois anos, tendo morrido igualmente na flor da idade, vítima da doença mortal do ódio humano.  Como era sobreviver naquele tempo em que não havia subsídios estatais mas apenas mecenas a quem havia que agradar – e ele, bastas vezes, tornou-se mestre em desagradar-lhes… - respondendo a encomendas específicas que, de alguma forma, limitavam a liberdade criativa do autor. A sua relação de amor-ódio com Leopold, o pai. O amor incondicional pela mãe, cuja morte o arrasou…

Deixando-o a fazer as honras ao vintage, coloquei no DVD o filme de Milos Forman de 1984, “Amadeus”.
Nas duas horas seguintes o meu convidado não se mexeu. E, no fim, suspirando, apenas murmurou “Será esta a imagem que fica de mim? Um tonto infantil e malcriado, mau filho, gastador, boémio e bebedolas?...!”
Retorqui-lhe que, por causa daquele filme absolutamente magistral, muita gente o havia ficado a conhecer e que muita outra, como eu, já o conhecendo desde criança graças a uma biografia da Editora Civilização herdada dos irmãos mais velhos, ficou a amar profundamente a sua música, toda ela genial, fruto de uma inspiração que nos convoca para o Olimpo. E que, neste século e no nosso Mundo Ocidental – e também por força de um seu compatriota de nome próprio Sigmund -, compreendemos, mais do que nunca, que o génio tem, muitas vezes, que ser sopesado com liberdades, fugas e recurso a compensações que não se permitem às pessoas normais, cuja normalidade de vida deveria, aliás, dispensar tais necessidades.
O céu começava a tingir-se de laranja quando nos despedimos. Com a porta quase fechada voltei a abri-la ante uma batida imperativa. Disparou febrilmente: “Só não percebo porque me chamaram Amadeus, toda a gente sabe que me chamo Wolfgang, Wolfie para os íntimos”. Virou costas e saiu sem me deixar responder.

Enquanto o leitor de CD reproduzia os últimos acordes do Requiem inacabado, recordei que, etimologicamente, Amadeus é o que ama a Deus mas que, no caso do meu convidado seus pais terão escolhido tal nome (Theophillus, no original, ou seja, filho de Deus) como premonição de que seria o eleito de Deus. Terá sido esta a razão que levou Forman a optar pelo nome menos conhecido? Ou, mais prosaicamente, a opção deve-se à mais fácil dicção para o público anglo-saxónico? Não sei e também de nada serviria que soubesse pois o meu convidado desaparecera como que eclipsado pela aurora que se ia impondo.

Sem poder esquecer a pergunta, folhei, distraída, um catálogo de uma exposição da obra de um outro Amadeu, este nosso, de Manhufe,  em que aparecem apontamentos de um Amadeo italiano, contemporâneo do nosso,  ambos igualmente geniais, ainda que noutras Artes, e cujas mortes prematuras ceifaram futuros que, a ajuizar pela obra já feita, só podiam ser brilhantes.
Fui forçada a concluir que Amadeu, Amadeo, Gotlieb, Theophillus é, em qualquer língua, um génio eleito por Deus e para Ele precocemente chamado como contrapartida da sua genialidade... E que, intuindo esse destino, todos eles trabalharam febrilmente para cumprir a Missão a que haviam sido destinados antes que chegasse a hora do chamamento.

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A receita deste Convidei Para Jantar é austríaca. O Strudel, segundo li, será originário de Salzbourg, terra que viu nascer Mozart e foi tirada (há quase vinte anos...)  do Grande Livro de Cozinha Internacional, das Selecções do Reader’s Digest (cortesia da casa materna), sendo a terceira vez que é confeccionada por mim. Tem adaptações (entre parênteses aparece o ingrediente original) para a tornar mais equilibrada (do meu ponto de vista, claro). O meu convidado queixou-se da falta de açúcar...
Apfelstrudel
Massa
Ingredientes
225gr de farinha T65
½ colher de chá de sal
2 colheres de sopa de pasta de sésamo clara (1 chávena de óleo)
3 ou 4 colheres de sopa de limão
6 colheres de sopa de água morna
1 ovo
(25 gr de manteiga derretida)
Preparação
Misturar a farinha com o sal, fazer um buraco e colocar o ovo, o óleo e o sumo de limão, juntar a água pouco a pouco, trabalhando a massa até que esta se solte completamente das más e da taça de trabalho, colocando-a então numa superfície lisa polvilhada com farinha, trabalhando-a cerca de 10 minutos. Colocar então a massa numa tijela aquecida (colocar água a ferver enquanto trabalha a massa no recipiente que se vai utilizar depois) e deixar repousar 30 minutos.
Enquanto a massa repousa, preparar o
Recheio
Ingredientes
(1)4 maçãs reinetas descascadas às rodelas e demolhadas em água com sal
(2)75gr de passas
(3)50gr de nozes picadas
(4)2 colheres de sopa de geleia de arroz  (65gr de açúcar)
(5)½ colher de chá de canela em pó
(6)¼ de colher de chá de noz moscada
(7)50 gr de pão ralado
(8)raspa de um limão (a raspa é uma inovação de minha lavra)
½ colher de sopa de pasta de sésamo clara e um pouco de malte de cevada
(50gr de manteiga)
Preparação
Juntar os ingredientes (1) a (8), com uma pitada de sal.
Colocar a massa num pano polvilhado com farinha. Tende-la num rectângulo com 0,3cm de espessura e 50cm*30cm de área.
Pincelar com a ½ colher de pasta de sésamo, espalhar o recheio uniformemente deixando cerca de 2cm de cada um dos lados.
Enrolar com a ajuda do pano, colocar em cima de papela vegetal untado com óleo (de sésamo) num tabuleiro polvilhado de ir ao forno, pincelar o rolo com malte de cevada e levar ao forno pré-aquecido a 190ºC durante cerca de 40 minutos.
Deixar arrefecer.
Servir com iogurte biológico natural (originalmente, seriam natas batidas sem açúcar, mas o teor de gordura das natas é dez vezes superior ao do iogurte e, não sendo adepta de lácteos, tive que me render pois as natas de soja super-cremosas  desapareceram do mercado...).

 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

E AGORA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE (8)

Ou algo muito igual ao que se vai dizendo e ouvindo por estes dias:

FELIZ NATAL! - com ou sem presentes, mas sempre com muita moderação nas comezainas!!!

E BOM ANO NOVO. Para os arautos da desgraça, avanço estes argumentos para o ano ser bom:
1. Estamos vivos!
2. Temos saúde!
3. Escrevemos e lemos este blog, logo temos INTERNET, logo somos instruídos e info-incluídos (e temos acesso à NET, pago por nós ou terceiros...).
4. Vivemos num país com um clima magnífico!
5. O Inverno começou anteontem (YUPI!!! YES! YES! YES!) o que significa que daqui para a frente os dias vão começar a ser cada vez maiores, logo vai haver mais serotonina e menos tendências depressivas!

Por último, aqui a "patroa" vai recolher às boxes e finalizar os objectivos de 2011, nos quais a culinária apenas se inclui enquanto actividade básica de sobrevivência!

Deixo-vos uma imagem da Sagrada Família de um pintor de que gosto muito - Jose de Ribera.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E AGORA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE (7)





MIMINHOS PARA O NATAL

O meu Natal este ano vai ser passado em paz com família e amigos. Sem presentes.
E, espero, sem refeições pantagruélicas.
Para algumas pessoas que durante todo o ano me ajudam a ser mais feliz sem esperar nada em troca vou oferecer uns mimos.
Alguns serão as minhas compotas.
Outros serão uns artigos de artesanato feitos pela SOL. Os colares são giríssimos e a SOL aceita encomendas à medida. As que lhe fiz estão a sair a bom ritmo.
Além disso, a SOL precisa de trabalho.
Toca a ir visitar o blogue da SOL!

http://avidadasol.blogspot.com/2011/12/vende-se-colares_08.html