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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CONVIDEI PARA JANTAR

OS MEUS PRIMEIROS AILAVIUS...

Entraram na minha vida tinha eu onze anos e até aos doze deixaram-me a cabeça a andar à roda.

O que mais me seduziu neles foram os seus caracteres intrépidos, a defesa intransigente das causas e valores em que acreditavam, os riscos permanentes que corriam para colocaram a salvo “as suas damas”, a primazia dos compromissos assumidos e da honra pela palavra dada, tudo isto os fazia elevar para um patamar superior daqueles a que estava habituada.

Foram um amor bem guardado, quase um segredo de Estado, tantas foram as interferências e as tentativas de acabar com a nossa história, pois os adultos achavam que a sua era uma pouco recomendável companhia para mim.

Até hoje, nunca percebi porquê.

Com eles aprendi muitas coisas que nunca mais esqueci – história de vários países, geografia, geo-política, intrigas de alto nível… Aprendi quem foi o Duque que dá nome ao Palácio onde vivem os Reis de Inglaterra, que os Áustria eram espanhóis (incongruência apenas resolvida muitos anos depois quando percebi a questão sucessória dos Reis Católicos e como os Habsburgo – ditos Áustria – chegaram ao trono de Castela), que Richelieu foi uma dupla Eminência, enquanto Cardeal e Primeiro-Ministro de França e, que Mazarino, embora Cardeal e Primeiro-Ministro dessa mesma França, ficou para a história por ter inaugurado a noção de eminência parda…

Reencontrei-os vinte anos depois, mais velhos, gordos e afastados das lides que os haviam unido, das lutas activas, com excepção de um deles. O nosso último encontro foi triste – vi-os partir, um a um, gastos pela tristeza ou simplesmente pela vida, um deles caído num campo de batalha, cumprindo o juramento de intransigentemente defender a Pátria que era sua…

Depois deles, houve outros ailavius – um quis descobrir a pedra filosofal sob a forma de criação de uma tulipa negra, outra, tuberculosa e amante de camélias, por amor se afastou do seu amor (uma seca! Depois de tanto duelo, de tanta intriga palaciana, de tanto cavalo estafado em corridas para Inglaterra em busca das agulhetas que iriam salvar a honra de uma rainha, não há pachorra para tísicas!), outro ainda, tornado Conde, fez da sua vida uma luta contra pecadores e contra o mal, empreendendo uma vingança cruel que só terminou quando arrasou o último dos seus algozes - mas, nesta coisa de ailavius, não há amor como primeiro.



Vestida a rigor – depois de correr as várias peças vintage que andam lá por casa, escolhi uma saia comprida da minha mãe, de lamé, ao melhor estilo dos anos setenta, para a segurar na cintura, tive que a prender com um alfinete-de-ama, o que provocou um gracioso plissado, um top preto bem decotado, luvas pretas até ao cotovelo, pérolas de pechisbeque nas orelhas, no pescoço e nos pulsos fizeram as vezes de jóias, uma maquiagem subtil - eis-me pronta para receber os ailavius da minha pré-adolescência: os Três Mosqueteiros, que afinal eram quatro, Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan (o único não-Mosqueteiro e que, curiosamente, existiu mesmo, tendo sido Marechal da França) e, claro, o seu criador, Alexandre Dumas Filho, autor de Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, O Visconde Bragelonne, trilogia que reúne as aventuras dos meus heróis, para além de muitos outros livros que rechearam o meu imaginário adolescente.

Convidá-los para jantar foi um exercício difícil pois, do que deles me recordava, todos eram uns carnívoros empedernidos...

Resolvi cozinhar um bom jantar de Inverno, simples, honesto e muito lá do Norte, onde decorreu a jantarada, a condizer, aliás, com a estação e o frio reinantes – uma canja de millet, um arroz de couve portuguesa a acompanhar umas empadas de peixe e legumes com muita salada e, no fim, umas maçãs acabadas de assar no forno, recheadas com miso, raspa de laranja e miolo de amêndoa moído e regadas com cognac, oh la la!!!.

O vinho, esse, era tinto e do Douro e correu livremente. Assim como as histórias.

Noite dentro, contaram-se grandes segredos de Estado discutiu-se a questão da Flandres, a travessia do Canal da Mancha, a sorte do Duque de Buckingham, morto à traição por um enviado de Milady, essa Mata Hari do século XVII, emissária do tão odiado Richelieu… Suspirou-se pelos amores perdidos, enumeraram-se as inúmeras cicatrizes dos incontáveis duelos, relembrou-se o seu juramento de sangue, mil vezes entoado



E quando todos saíram, rindo alto, inebriados pelos vapores do tinto do Douro, apenas acalmados pelo Nespresso que os deixara maravilhados (“What else?!), eu sentei-me no chão da sala, enrolada nas saudades que tinha dos tempos em que estas personagens foram os meus ailavius.

CANJA DE MILLET

Ingredientes
1 medida de millet
5 medidas de água
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
vinagre de ameixa a gosto

Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o alho e o louro, quando estiver dourada acrescentar a água e quando esta ferver acrescentar o millet, que se deixa cozinhar entre 20 a 30 minutos.
Serve-se decorada com limão em triângulos e salsa picada (ou, preferencialmente, folhas de hortelã) e temperada com um golpe (generoso) de vinagre de ameixa.

ARROZ DE PENCA (também dita "couve portuguesa")


Ingredientes
1 medida de arroz integral
3 medidas de água
1 ou 2 pequenas pencas, muito tenras
sal
azeite
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o dente de alho e a folha de louro, quando estiver dourada, acrescentar a couve muito bem lavada e cortada em pequenos bocados (mas sem ser juliana), quando a couve estiver tenra adiconar o arroz bem lavado e a água a ferver, fechar a panela de pressão e deixar cozer cerca de 40 minutos após a panela ganhar pressão.

EMPADAS FOLHADAS DE PEIXE E VEGETAIS


Ingredientes
massa folhada em quadrados (2 por pessoa)
pescada cozida em cubos
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
três cogumelos de Paris grandes picados
azeitonas sem caroço
salsa picada
vinagre de ameixa a gosto
Preparação
dispor os vários ingredientes em cima dos quadrados de massa folhada, terminando com a salsa picada e uns borrifos de vinagre de ameixa.
Fechar os quadrados de massa e levar a forno pré-aquecido cerca de 20 a 25 minutos.
Servir quentes (ou frios, tratando-se de um lanche ou refeição volante).

MAÇÃS ASSADAS


Ingredientes
maçãs golden a gosto (um ou duas por pessoa, dependendo do tamanho), bem lavadas e, preferencialmente, demolhadas em água com vinagre de sidra para retirar químicos), descaroçadas e com casca
uma pasta feita com miso de cevada, raspa de limão, miolo de amêndoa moído
um pouco de cognac
Preparação
dispor as maçãs numa assadeira de ir ao forno, rechear o espaço do caroço com a pasta de miso
regar as maçãs com cognac
Levar ao forno pré-aquecido e deixar assar cerca de 40 minutos
Servir com os sucos formados pelo cognac e pela própria maçã.

E com esta história e estas receitas participo na presente edição do desafio Convidei para jantar, de que o blogue Anasbageri é simultaneamente patrocinador e anfitrião.
Oxalá que a iniciativa se prolongue por muitas e muitas edições, pois deixou saudades cá por casa...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

CONVIDEI PARA JANTAR ALGUÉM DOUTRA GERAÇÃO - RESUMO DAS PARTICIPAÇÕES





Os convites estavam feitos e os menus antecipadamente preparados ao mínimo detalhe. A ansiedade era grande – virão, não virão?... Reconhecer-nos-ão?...

De facto, os nossos convidados desta Edição do Convidei para Jantar eram pessoas duma geração diferente da nossa, que haviam passado pelas nossas vidas e nelas haviam deixado marcas indeléveis. Antepassados, que haviam contribuído para a nossa formação, educação, que nos tinham dado exemplos e incutido valores. Ou, ao invés, as gerações que nos sucederão, que ajudamos a educar e para as quais  as nossas vidas e condutas serviram (e ainda servirão) de exemplo.

Antecipei que os avós iriam ser as estrelas desta edição e não me enganei – tivemos uma tia-biasavó e avós, muitos avós, incluindo uns padrinhos que fizeram as vezes de avós, cuja marca deixada foi a da prodigalidade dos mimos e do carinho a par de um respeito e disciplina exemplares.
Tivemos pais e tivemos mães.

Tivemos um convite colectivo a uma (alegada) cadeia familiar matriarcal (não sei se estou de acordo…).

E tivemos outra marca forte de relações – a dos irmãos.
E depois desse passado, que pelo exemplo nos formou e moldou o carácter, temos o futuro dos descendentes, daqueles que – esperamos! – já estarão a preparar-se para tomar os nossos lugares e que nos recordarão mais tarde com o mesmo amor e carinho com que recordamos os nossos antepassados.

No que respeita ao receituário, as participações optaram por pratos de família, cuja linha condutora é, em geral, uma procura de sabores ancestrais, por demais conhecidos e amados - ainda que, quiçá, escassamente cozinhados, como confessado por uma das participantes -,  e que, em simultâneo, ressuscitam práticas culinárias tributárias de uma economia doméstica e familiar que era gerida  - pelas mulheres, sempre elas... -, com mão de ferro, pois as bocas para alimentar eram muitas e havia que fazer esticar a despensa. E assim temos muitas receitas de comidinha de sobras (aquilo que neste blogue apelido de “redons” – restos de ontem), em que uma pequena posta de pescada ou bacalhau dá para fazer um empadão ou um arroz que irá alimentar muita gente…

Para além da economia, o outro aspecto a salientar é que todas as receitas são saudáveis e equilibradas, podendo ser cozinhadas e comidas todos os dias sem risco de aumentar nem o peso nem os actuais "demónios civilizacionais" que dão pelo nome de colesterol e diabetes. São receitas que, com mais restrição ou menos restrição do paodecereais, poderiam ter sido cozinhadas pelos nossos antepassados (uma das participantes referiu que a sua avó, não obstante a perdição pelos doces, tinha uma alimentação mais saudável do que a dela própria).
A este propósito recordo um nutricionista célebre no Porto que aconselhava as clientes a, na dúvida, comer como os avós pois de certeza que se alimentariam de forma saudável e equilibrada (faltou acrescentar a parte do trabalho braçal…)

Cozinhar com as (pequenas) limitações impostas pelo paodecereais terá constituído um desafio difícil para algumas participantes. Eu cozinho assim todos os dias, há vários anos e não concebo outra maneira de o fazer. Talvez por isso, a balança, mais quilo menos quilo, se vá mantendo constante e os outros “demónios” (muito) fora do horizonte…

Obrigada a todas (e todos) pelas vossas participações que nos emocionaram e enriqueceram os nossos conhecimentos culinários. Não posso deixar de expressar um agradecimento especial a todas as pessoas que não costumam participar nestas lides e o fizeram por minha insistência (todas as participações recebidas por email).

 
E agora é tempo de passar em resumo as participações:





A Mena, do blog Aventuras duma mamã, convidou o avô e cozinhou-lhe um fantástico folhado de peixe.







Alguém que quis permanecer  anónimo convidou a filha e cozinhou-lhe uma beringela recheada com cogumelos.
 







A Babette, do blogue homónimo, convidou a avó e cozinhou um arroz com cogumelos e beringela.
  





 

A Sandra, do blogue Doces em Casa, convidou a mana dez anos mais nova e, para além de uma massa com vegetais, presenteou-a com um bolo de bolacha, numa versão diferente do habitual mas nem por isso menos saborosa.




A Natália Rodrigues enviou a sua Sopa Mágica por email e ela foi publicada neste blogue. Tão mágica era a sopa que nos trouxe uma Natália doutra geração, de que ela própria já tinha saudades...



prazer a cozinhar - almôndegas de atum e curgete
A Joana, do blogue Prazer a Cozinhar, trouxe-nos uma tia-bisavó e um avô, para os quais cozinhou umas almôndegas de atum e courgette.

 





A Maria, do blog [Limited Edition], trouxe-nos não uma, não duas mas sim três gerações: a sua avó, as irmãs mais novas e o sobrinho bebé, para os quais confeccionou uma courgette recheada com arroz e vegetais.
 





Outra Maria, desta feita do blogue Oficina das Papitas também optou por convidar a avó e cozinhou-lhe um saudável Spaghetti A+++ (ou seja, com alho, azeite e abacate).
 


A participação da Naná recebida por email e publicada no blogue - http://paodecereais.blogspot.pt/2013/06/convidei-para-jantarparticipacao-da.html - depois de evocar algumas pessoas de gerações passadas acabou por convidar a filha Maria João, tendo-lhe servido uma refeição completa de sopa de hortelã e ovo, arroz de peixe e maçãs assadas em água.

 

 
A Maria João também respondeu ao repto e convidou a linha matriarcal da família (ainda estou a digerir esta...) tendo servido um delicioso pargo assado no forno com batata doce.



 





 


A Sandra, do blogue That cake sweet, trouxe a sua avó, gulosa como só ela, mas que apreciava um arroz de bacalhau deliciosamente cozinhado com azeite e muito, muito malandro....



 

  
A Marmita, do blog homónimo, trouxe-nos a convidada mais especial que poderíamos ter nas nossas mesas - a nossa mãe - e presentou-a  - e presenteou-nos -  com um belo couscous doce, de inspiração marroquina, que tanto pode servir de sobremesa como de pequeno almoço. Será nesta versão que o irei experimentar.
 
 
 
A Manuela, do blog Sabores com Tempo, trouxe-nos aquele convidado que nunca quereríamos deixar de ter na nossa mesa - o Pai - para quem cozinhou um belíssimo polvo à algarvia.
 
 
 
 
 


A Ginga, do blogue Ananás & Hortelâ, convidou duas figuram femininas marcantes na sua vida - a Mãe e a Avó - para as quais confeccionou uma delicada courgette redonda recheada com boulgur.








Cá pela casa, os convites foram diversos e abrangentes:





A Matilde, criadora do blogue, convocou três gerações para a sua mesa, a dos pais, referência absoluta, a sua - que inclui os irmãos -, e, por último, a terceira geração. Parece que se deram bem com o regime do paodecereais (eu sei que teria gostado de todos os pratos do menu daquele almoço, mas não resisti à fotografia da sopa, que considero a imagem por excelência do conforto familiar - excepto as sopas "de entulho" que me obrigavam a comer em pequena).





Eu também convidei várias gerações, mas em "prestações":

 

Os Padrinhos, que fizeram as vezes de avós, e os Pais foram os meus primeiros convidados. Tiveram direito a uma refeição completa mas muito simples, constituída por sopa de ervilhas, empadão de pescada no forno e puré de batata doce.






Seguidamente, foi a vez das gerações mais novas, numa tarefa conjunta de cozinhar umas bolachas caseiras muito boas (e pouco doces...) e que  resultou num belo lanche oferecido aos Avós (meus Pais).




Por fim, os quatro irmãos, num regresso ao passado que nos marcou como ferro em brasa e em que as comidas foram o menos importante mas mesmo assim soube-nos bem a reconfortante sopa de peixe e o original strudel de cerejas.
 
 
 
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O Convidei para Jantar vai agora de férias e regressará no fim do Verão. As novidades serão publicadas no blogue da sua criadora, Anasbageri.

sábado, 15 de junho de 2013

CONVIDEI PARA JANTAR QUATRO IRMÃOS

A minha participação nesta edição no CpJ não poderia ficar completa sem trazer os meus irmãos. Todos mais velhos do que eu e, por isso, doutra geração. Divergimos em muita coisa mas foi por influência dos meus irmãos que me tornei fã de Cohen, Brel, Simon&Garfunkel, Joan Baez, Bob Dylon, de entre muitos outros.
 
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Cheguei, qual conjurada, à velha casa que havia visto nascer alguns de nós, assistira às metamorfoses das várias idades que lá vivêramos e, por fim, nos vira partir num dia longínquo dum Outono do século passado.

 
Percorri-a, em silêncio, um silêncio que, aliado ao ambiente sepulcral da casa, se tornou ensurdecedor. Pela minha memória passaram as imagens  que julgava esquecidas: o meu quarto de brinquedos, agora vazio, e no qual tive que entrar quase de gatas, o vizinho laboratório do Z., devidamente localizado nas mansardas - não fosse o nosso “Professor Pardal” provocar alguma explosão e assim só o telhado é que ia pelos ares -, as escadas em caracol que se desenvolviam sob a clarabóia e nos conduziram à zona nobre dos quartos. Fechei os olhos; vi o psiché do quarto dos pais, vi-me a abrir caixas e a desfazer colares cujas contas rolavam por todo o lado, vi-me fazer uma grande birra no quarto contíguo e a levar uns sopapos que me deixaram calada (soluçante, infeliz, mas calada); vi-me nesse mesmo quarto, aborrecida de morte durante os trinta dias que durou a cura da minha hepatite.
A sala de jantar “dos dias de festa” estava vazia  mas via-a tal qual era, com a adjacente “alcova” que servia de sala de estar e onde se localizou durante muitos anos a televisão (que só se via à noite e depois de jantar). Pelas sacadas abertas de par em par o vento fresco do fim da tarde trouxe consigo o odor da madressilva que cobria a varanda; apanhei algumas flores e juntei-as às glicínias que já tinha colhido no quintal da frente. Da varanda avistei a antiga horta e o “coradouro” que se usava para branquear a roupa, nos tempos pré-jurássicos em que não tínhamos máquina da roupa. Apercebi-me de que o antigo horto já não existia, amputação provocada pela VCI havia já um ror de anos, e agora quase (quase…) se podia ver a casa “nova”, aquela onde vivia a Mãe, distante apenas umas centenas de metros mas que para mim eram umas centenas de décadas.

 
 
 
 
 
 
 


Baixei ao piso da cozinha e da sala de jantar do dia a dia. Já trazia o jantar pronto, foi só pôr a mesa e esperar a chegada dos outros. Liguei um velho rádio que, depois de uma tosse roufenha, de repente, começou a transmitir …  o “Em Órbita”!!! Não quis crer no que estava a ouvir, mas sim, era o Em Órbita, que passava Leonard Cohen e Simon&Garfunkel, Joan Baez, Bob Dylon. O mesmo que anunciara “in ilo tempore” que Strangers in the Night tinha sido o pior disco do ano, para enorme desgosto da Naná…
Desisti de entender e fui trauteando as letras que agora já eram minhas velhas conhecidas, não representando Cohen nenhum papão que me fizesse comer a sopa como nos tempos do velhinho Em Órbita.

Um telefone preto de baquelite jazia no chão. O número 40687 nele inscrito fez-me recordar os tempos em que para ligar para aos Padrinhos tínhamos que passar pela telefonista que, numa voz nasalada perguntava “982?...” devendo nós acrescentar os dígitos em falta, que inicialmente eram três e depois passaram a quatro. E tínhamos sorte porque de casa dos Padrinhos tempos houve em que só se levantava o auscultador de baquelite e a telefonista fazia o trabalho todo (suponho que, nas horas vagas, também ouvisse algumas conversas…).
“Os outros” foram chegando. Primeiro a Naná, acompanhado do Gastão, não o do Patinhas, mas sim o seu gato preto, que se soltou desvairado correndo pela casa. “O que tu queres sei eu”, pensei com os meus botões, ao mesmo tempo que ficava aliviada pois a perspectiva de maus encontros não era descabida.

Veio depois o Z., que trouxe um bom humor alucinante e começou a acompanhar a rádio, com um pau de vassoura a fazer de microfone, cantando “Capri, c’est fini”, do cantor que apelidara de Erva da Vila (Hervé Vilard); nessa noite não passaram nada do Gato Esteves, mas mesmo assim, tivemos direito à Desfolhada (essa cantada a “mielas” comigo) à Festa da Vida, ao Cavalo à Solta, ao Corre Nina, ao El-Rei D. Sebastião, simultaneamente cantadas e orquestradas pelo Z.. 

 

Mais tarde chegou o primogénito. Trazia um Barca Velha de 95 e um Porto Vintage (ou LBV ou simplesmente envelhecido) de 1977, duas garrafas que, no seu conjunto, deveriam ter um teor alcoólico de 50ºC. “Menino, «ganda» bêbeda! Deve ser para voltarmos para casa da Mãe a rastejar, isto se não formos presos antes de lá chegarmos! Não sei se ainda te lembras, mas transitar em estado de alcoolémia é crime de perigo e isso deve aplicar-se a «peões rastejantes»!”. Encolheu os ombros, olhou-me e sorriu, convocando todo o seu charme de outrora – “Sabes mana, este dia não vai repetir-se…”




 
Desembrulhei o farnel – uma sopa rica de peixe, que junta os sabores do mar com os do campo e com a qual iniciei as minhas lides bloguísticas há precisamente dois anos e um strudel de cerejas, receita adaptada da minha mãe para receber o primogénito nos seus regressos de Coimbra.

Sentamo-nos à volta da mesa e fomos comendo e bebendo devagar, falando todos ao mesmo tempo, muitas vezes perguntando uns aos outros “Lembras-te de quando…?”  E todos nos lembrávamos de quando, como, onde, em que dia, a hora e minuto, a parte estranha é que as nossas memórias raramente coincidiam no dia ou na hora ou no minuto... É verdade também que todos éramos  um bocadinhos “estranhos” para essa coisa das datas – a bem dizer, éramos tipo “nerd” ou “weird” (não me ocorre definição em português), e, enquanto a discussão prosseguia, liderada com quatro campeonatos de avanço pelo primogénito, que, muito apropriadamente, recitava de cor os anos em que o FCP tinha sido campeão nacional, respectivos treinadores e mais não sei quantos detalhes, alheei-me um bocado e pus-me a imaginar uma equipa de profilers do FBI a fazer-nos o perfil psicológico (o que só poderia acontecer por pura recreação porque por muito "nerds" que fossemos, psiocopatas não éramos de certeza).
O meu devaneio foi subitamente interrompido por um latido impaciente. Ficámos imóveis, eu fria e a transpirar, com o coração a 250 ao minuto. Da janela, uma sombra negra saltou para a sala e caiu aos pés do primogénito. Incrédulos, balbuciamos em uníssono “Flock?!...” Sim, era o velho Flock, uma massa de caracóis pretos com peito branco, um misto de caniche, cão de água, cruzado certamente com uma refeirice qualquer. O Flock que dormia por baixo da cama do meu irmão mais velho e que rosnava ameaçador (ele, que fugia de ratos…) quando alguém invadia aqueles domínios sagrados. O Flock que arrancava as couves da horta e puxava os lençóis do coradouro para os depositar à porta de casa como forma de protesto por ficar fora de casa em dia de visitas para jantar (hoje cantaria a Grândola…); o Flock que, mudados de casa, fugindo aos novos donos, persistiu uns dois anos em ir visitar-nos na nova morada, apesar de nunca lá ter estado.  Sim, era ele mesmo, e todos nós chorámos, por tudo aquilo que o pobre cão representava e convocava do nosso passado. Recordamos aquele o dia em que a cafeteira do café explodiu (porque a Naná se esquecera de lhe por água…) e o Flock saltou pela janela da cozinha e fugiu para o fundo do quintal onde ficou durante muuuuiiito tempo ou aqueloutro em que os manos decidiram dar a provar ao pobre Flock, criatura crédula e amante dos donos, uma colher de aguardente… Deve haver histórias destas em todas as famílias mas as nossas são, como podem imaginar, únicas.
De repente, surgiu o gato preto, cheio de teias de aranha e pó, encrespado e com uma cauda eriçada, bufando furiosamente ao invasor que lhe roubava protagonismo. O velho Flock aninhou-se por baixo da cadeira do antigo dono e assim ficou de orelha murcha.
Rimos até às lágrimas e já não sabíamos se era das recordações, do confronto dos animais, se da mistura do Barca Velha 95 com o LBV de 1977…

Saímos para o apendre e ficamos a observar a gloriosa lua cheia que se erguia e se ia impondo no céu à nossa frente, prenha e avermelhada como costumam ser as luas dos luares de Verão.
Lá dentro, a telefonia passava Forever Young, de Bob Dylon, mas cantada por Joan Baez, naquela voz pura e arrebatadora, cuja letra me ecoava pelo pensamento, e desejei (voltar a) ter aquela juventude interior e de espírito, que, por muitos anos que vá somando, me ajudará a manter jovem, sonhadora, idealista e generosa.
Em silêncio, envolvidos pelos cheiros da noite de verão, e guiados pelo luar, saímos da casa velha, da qual nos despedimos sabendo que os quatro juntos não mais lá iríamos estar novamente.


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Passemos então às receitas.

SOPA DE PEIXE

A receita segue a aqui publicada em 15/6/2011, com a seguinte diferença - como o peixe usado foi a pescada, que é pouco gorda, não a cozi na água da sopa e usei um caldo de peixe fortemente concentrado (feito em casa e previamente congelado). Aos vegetais  acrescentei uma mão cheia de feijão verde. Cozi a pescada à parte. No momento de servir a sopa, juntei pequenos cubos de pescada e, em vez da massa ou do pão, usei umas sobras de arroz de peixe, confeccionado segundo a receita da Naná.



STRUDEL DE CEREJAS
A receita segue a aqui publicada na 6ª Edição CPJ, com a diferença de que, em vez de maçã, confeccionei o strudel com cerejas e substituí as nozes por amêndoas em pequenos palitos.
 

 
 
 










 



CONVIDEI PARA JANTAR AS MULHERES DA MINHA FAMÍLIA (participação recebida por email)

Digam o que disserem, a minha família é uma sociedade matriarcal. As Mulheres dominam em número e em vontade (ou teimosia!). Por isso as  grandes conversas, confissões e decisões continuam a acontecer na cozinha em paralelo com a confecção dos almoços de Domingo e Jantares de Natal.
As cozinhas das Mulheres da Minha Família todas têm todas um banco e eu sempre assumi que aquele lugar estava reservado para mim. Desde pequena que assisto a estes encontros sentada no canto da cozinha, com “olhos de ver” e ouvidos que bebem as conversas. Era a troca de segredos,
confissões e “cusquices” que me fascinava (e fazia com que levasse o ocasional pontapé debaixo da mesa quando me “descaía” com um pedaço  de informação que ainda não era do conhecimento geral). Assistia a estas “reuniões” como membro não participante da sociedade secreta à qual
desejava ardentemente pertencer um dia.
Até há pouco tempo, a minha tarefa era a secagem da loiça, depois da azáfama passar e das mulheres se mudarem para a sala. Apesar de já ter subido na hierarquia, trocado o banco pela lavagem da loiça e a admiração silenciosa pela ocasional participação nas “reuniões secretas”, há uma coisa
que continuo sem ter feito: cozinhar para as Mulheres da Minha Família.
Todas elas o fazem com um estilo próprio e inconfundível e parece já não haver espaço para ocupar com mais uma personalidade culinária. Tanto a tradição, o instinto e a fusão de sabores são lugares ocupados e tenho que  confessar uma certa falta de imaginação e talento para lhes “chegar aos
calcanhares”.
Mas, à laia de teste de admissão na sua sociedade secreta de destinos decididos na cozinha, vou convidar para jantar as Mulheres da Minha Família, e desejar que na minha cozinha de T0+1 haja espaço para uma reunião da sociedade secreta.
 
E com esta história e receita participo na iniciativa Convidei para Jantar, patrocinada pelo blogue ANASBAGERI e de que o blogue paodecereais é o actual anfitrião.
 
 
 
 
Pargo no forno com batata doce
Ingredientes
Pimento
Tomate
Cebola
Alho
Alho francês
1 pargo grande
Batata doce
Pimenta, colorau, coentros, louro, gengibre
Azeite
Preparação
Num tacho, juntar água (~33 cl), duas colheres de azeite, meia cebola , 3 dentes de alho, duas colheres de colorau, uma folha de louro, pimenta preta, coentros e duas lascas de gengibre. Aquecer até levantar fervura e deixar ferver durante alguns minutos. Se possível, adicionar a cabeça do peixe para dar sabor.
Pré aquecer o forno a 200ºC e, num recipiente, fazer uma cama de alho francês, pimento, tomate, cebola e alho, para o pargo. Juntar a batata doce em rodelas finas e fazer cortes no pargo para este cozinhar por inteiro. No recipiente, adicionar o caldo a ferver e levar imediatamente ao forno durante aproximadamente 45 minutos (dependendo do tamanho do peixe).
 
Maria João



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Convidei para jantar…(participação da Naná recebida por email)

          O desafio para participar no desafio “Convidei para jantar”, inciativa da Anasbageri e de que este mês é antitrião o blogue paodecereais veio deixar-me um bocado atrapalhada, já que não sou muito destas coisas. Prefiro meter as mãos na massa e ficar por aí. Mas a insistência da minha irmã foi tal que acabei por, apesar da minha resistência, ir pondo as ideias a marinar e fazer uma viagem no tempo, tentando ver agora à distância como cheguei à conquista da cozinha, um lugar onde gosto de me mexer, sem pressas e sem muitos rodriguinhos, um pouco à moda da Filipa Vacondeus, com alguma pronúncia do norte. Dizem que  foi à minha avó Teresa, transmontana que a vida trouxe para o Porto, cozinheira de fogão de lenha mesmo na cidade, que fui buscar esta “mão” para a cozinha, uma cozinha sem pretensões, atenção, como aliás vão ver.
   
            E foi precisamente nessa minha avó que pensei, e como seria engraçado tê-la à minha mesa – desde que não estivesse, claro, no seu jejum mensal, todo o dia só chá, “brandinho”, como sempre se tomava, em cumprimento fiel do preceito da igreja, sem se tentar com a compra da bula que dele a dispensaria. O que prepararia  para ela? Talvez pataniscas que, tal como as faço, estão assim entre as iscas (espécie de bacalhau albardado) e as larocas – não vem no dicionário, mas era assim que se chamava à versão mais aguada, que farfalhava no óleo e era preciso dobrar para ganhar mais volume.

           Para acompanhar, um arrozinho de favas - sempre gostei de favas, ao contrário dos meus irmãos e até fiz disso uma fonte de rendimento, pois pagavam-me para comer a sopa deles.

            Por falar em sopa, veio-me à memória uma outra reminiscência da infância, uma sopa de segundas-feiras, quando pouco havia em casa e não era dia da hortaliceira  passar. Sim, porque nessa altura ainda não tínhamos frigorífico, não havia  sequer minimercados, a peixeira vinha à porta, bem como a leiteira, o bananeiro, as galinheiras, etc.. Mas criavam-se galinhas e, por isso havia sempre ovos e ervas no quintal. E lá vinha a tal sopa de cebola e pão, com ovo e hortelã, uma delícia de aromas e sabores. Muitos anos mais tarde, quando a minha filha nasceu, na Maternidade Alfredo da Costa, nas três segundas feiras que lá passei, a sopa era uma versão menos aromática e menos saborosa, talvez, mas que o meu apetite e felicidade transformaram num verdadeiro pitéu.
 

            E lá continuei a minha deambulação, sem saber nem quem convidar, nem o que fazer. Foi quando me lembrei de uma situação em que, depois de uma semana de férias em Espanha, à mesa do jantar, cada um começou a antecipar o que iria comer quando regressasse a casa e a salivar nessa antecipação e a minha filha, então adolescente, perguntou: “Mãe, fazes um arrozinho de peixe?”. Acho que este prato tão simples, criado para ser  (mais) uma forma de levar uma criança a comer peixe, acabou por se transformar numa imagem de conforto, de casa, tal como eu muitas vezes pensava em empadão, tão simples como isso.

            E foi aqui que decidi a ementa para um jantar de improviso, para a Maria João e para o João, que já é suficientemente da família para apreciar o meu arroz de peixe. É verdade, tenho que pôr o banco no sítio, para  aquela conversinha do costume, os “entretantos” antes do jantar…
 

 Sopa de cebola e ovo


 
Corta-se cebola e dentes de alho, que vão a estalar em azeite, sem tostar, e junta-se um bom ramo de “cheiros” migados – salsa, coentros e hortelã -, sem deixar fritar, e a farinha necessária para engrossar o caldo, envolvendo bem.
Acrescenta-se água  bem quente, mexendo para engrossar.
Imediatamente antes de servir, com o caldo bem quente, junta-se ovo batido, mexendo com um garfo para formar fios.
Nota: Em vez da farinha pode usar-se pão duro ou millet.

 

Arroz de peixe

 

Coloca-se o peixe no tacho, com cebola cortada e alho, como se fosse a estufar, tapado, salpicado com sal e com um pouco de água, de modo a não pegar e a retirar do peixe todo o suco.
Quando estiver macio, retira-se do tacho, limpa-se de peles e espinhas, e corta-se em pequenos cubos.
Entretanto, no molho do peixe põem-se cenouras aos bocadinhos e ervilhas, que se deixam uns minutos a ressuar, sem deixar cozer muito.
Salteia-se o arroz nesta mistura, e acrescenta-se a água quente  – cerca do triplo da quantidade de arroz.


Quando o arroz está a meia cozedura juntam-se os pedaços de peixe, retificam-se os temperos e a quantidade de água, a gosto e, querendo, salpica-se com coentros frescos migados.


 

Maçãs assadas em água

Colocam-se as maçãs inteiras – de preferência golden ou royal gala, pois são bastante doces e não se desfazem - com pícaro e tudo num tabuleiro de forno e põe-se água até 1/3 da altura, pelo menos.
Leva-se ao forno e vão-se regando com a água, até ficarem cozidas a gosto.




Naná