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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CONVIDEI PARA JANTAR

OS MEUS PRIMEIROS AILAVIUS...

Entraram na minha vida tinha eu onze anos e até aos doze deixaram-me a cabeça a andar à roda.

O que mais me seduziu neles foram os seus caracteres intrépidos, a defesa intransigente das causas e valores em que acreditavam, os riscos permanentes que corriam para colocaram a salvo “as suas damas”, a primazia dos compromissos assumidos e da honra pela palavra dada, tudo isto os fazia elevar para um patamar superior daqueles a que estava habituada.

Foram um amor bem guardado, quase um segredo de Estado, tantas foram as interferências e as tentativas de acabar com a nossa história, pois os adultos achavam que a sua era uma pouco recomendável companhia para mim.

Até hoje, nunca percebi porquê.

Com eles aprendi muitas coisas que nunca mais esqueci – história de vários países, geografia, geo-política, intrigas de alto nível… Aprendi quem foi o Duque que dá nome ao Palácio onde vivem os Reis de Inglaterra, que os Áustria eram espanhóis (incongruência apenas resolvida muitos anos depois quando percebi a questão sucessória dos Reis Católicos e como os Habsburgo – ditos Áustria – chegaram ao trono de Castela), que Richelieu foi uma dupla Eminência, enquanto Cardeal e Primeiro-Ministro de França e, que Mazarino, embora Cardeal e Primeiro-Ministro dessa mesma França, ficou para a história por ter inaugurado a noção de eminência parda…

Reencontrei-os vinte anos depois, mais velhos, gordos e afastados das lides que os haviam unido, das lutas activas, com excepção de um deles. O nosso último encontro foi triste – vi-os partir, um a um, gastos pela tristeza ou simplesmente pela vida, um deles caído num campo de batalha, cumprindo o juramento de intransigentemente defender a Pátria que era sua…

Depois deles, houve outros ailavius – um quis descobrir a pedra filosofal sob a forma de criação de uma tulipa negra, outra, tuberculosa e amante de camélias, por amor se afastou do seu amor (uma seca! Depois de tanto duelo, de tanta intriga palaciana, de tanto cavalo estafado em corridas para Inglaterra em busca das agulhetas que iriam salvar a honra de uma rainha, não há pachorra para tísicas!), outro ainda, tornado Conde, fez da sua vida uma luta contra pecadores e contra o mal, empreendendo uma vingança cruel que só terminou quando arrasou o último dos seus algozes - mas, nesta coisa de ailavius, não há amor como primeiro.



Vestida a rigor – depois de correr as várias peças vintage que andam lá por casa, escolhi uma saia comprida da minha mãe, de lamé, ao melhor estilo dos anos setenta, para a segurar na cintura, tive que a prender com um alfinete-de-ama, o que provocou um gracioso plissado, um top preto bem decotado, luvas pretas até ao cotovelo, pérolas de pechisbeque nas orelhas, no pescoço e nos pulsos fizeram as vezes de jóias, uma maquiagem subtil - eis-me pronta para receber os ailavius da minha pré-adolescência: os Três Mosqueteiros, que afinal eram quatro, Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan (o único não-Mosqueteiro e que, curiosamente, existiu mesmo, tendo sido Marechal da França) e, claro, o seu criador, Alexandre Dumas Filho, autor de Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, O Visconde Bragelonne, trilogia que reúne as aventuras dos meus heróis, para além de muitos outros livros que rechearam o meu imaginário adolescente.

Convidá-los para jantar foi um exercício difícil pois, do que deles me recordava, todos eram uns carnívoros empedernidos...

Resolvi cozinhar um bom jantar de Inverno, simples, honesto e muito lá do Norte, onde decorreu a jantarada, a condizer, aliás, com a estação e o frio reinantes – uma canja de millet, um arroz de couve portuguesa a acompanhar umas empadas de peixe e legumes com muita salada e, no fim, umas maçãs acabadas de assar no forno, recheadas com miso, raspa de laranja e miolo de amêndoa moído e regadas com cognac, oh la la!!!.

O vinho, esse, era tinto e do Douro e correu livremente. Assim como as histórias.

Noite dentro, contaram-se grandes segredos de Estado discutiu-se a questão da Flandres, a travessia do Canal da Mancha, a sorte do Duque de Buckingham, morto à traição por um enviado de Milady, essa Mata Hari do século XVII, emissária do tão odiado Richelieu… Suspirou-se pelos amores perdidos, enumeraram-se as inúmeras cicatrizes dos incontáveis duelos, relembrou-se o seu juramento de sangue, mil vezes entoado



E quando todos saíram, rindo alto, inebriados pelos vapores do tinto do Douro, apenas acalmados pelo Nespresso que os deixara maravilhados (“What else?!), eu sentei-me no chão da sala, enrolada nas saudades que tinha dos tempos em que estas personagens foram os meus ailavius.

CANJA DE MILLET

Ingredientes
1 medida de millet
5 medidas de água
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
vinagre de ameixa a gosto

Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o alho e o louro, quando estiver dourada acrescentar a água e quando esta ferver acrescentar o millet, que se deixa cozinhar entre 20 a 30 minutos.
Serve-se decorada com limão em triângulos e salsa picada (ou, preferencialmente, folhas de hortelã) e temperada com um golpe (generoso) de vinagre de ameixa.

ARROZ DE PENCA (também dita "couve portuguesa")


Ingredientes
1 medida de arroz integral
3 medidas de água
1 ou 2 pequenas pencas, muito tenras
sal
azeite
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
sal
azeite
Preparação
Levar a cebola ao lume com uma pitada de sal e fio de azeite, o dente de alho e a folha de louro, quando estiver dourada, acrescentar a couve muito bem lavada e cortada em pequenos bocados (mas sem ser juliana), quando a couve estiver tenra adiconar o arroz bem lavado e a água a ferver, fechar a panela de pressão e deixar cozer cerca de 40 minutos após a panela ganhar pressão.

EMPADAS FOLHADAS DE PEIXE E VEGETAIS


Ingredientes
massa folhada em quadrados (2 por pessoa)
pescada cozida em cubos
cebola picada
1 dente de alho
1 folha de louro
três cogumelos de Paris grandes picados
azeitonas sem caroço
salsa picada
vinagre de ameixa a gosto
Preparação
dispor os vários ingredientes em cima dos quadrados de massa folhada, terminando com a salsa picada e uns borrifos de vinagre de ameixa.
Fechar os quadrados de massa e levar a forno pré-aquecido cerca de 20 a 25 minutos.
Servir quentes (ou frios, tratando-se de um lanche ou refeição volante).

MAÇÃS ASSADAS


Ingredientes
maçãs golden a gosto (um ou duas por pessoa, dependendo do tamanho), bem lavadas e, preferencialmente, demolhadas em água com vinagre de sidra para retirar químicos), descaroçadas e com casca
uma pasta feita com miso de cevada, raspa de limão, miolo de amêndoa moído
um pouco de cognac
Preparação
dispor as maçãs numa assadeira de ir ao forno, rechear o espaço do caroço com a pasta de miso
regar as maçãs com cognac
Levar ao forno pré-aquecido e deixar assar cerca de 40 minutos
Servir com os sucos formados pelo cognac e pela própria maçã.

E com esta história e estas receitas participo na presente edição do desafio Convidei para jantar, de que o blogue Anasbageri é simultaneamente patrocinador e anfitrião.
Oxalá que a iniciativa se prolongue por muitas e muitas edições, pois deixou saudades cá por casa...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A LESTE DA LUA E A OESTE D O SOL (2)

WINTER RECIPES
BUCHWHEAT MISO SOUP
OAT & RICE WITH STIR FRIED TOFU WITH SOYA SAUCE, GREEN CABAGE


On the day Cristiano Ronaldo won the prize of soccer player of the year (yes, he´s simply the best and I wish that each Portuguese, in his/her respective job and in his/her life in general, were as motivated, as persistent, as resilient, as ambitious and as hard working as he is), thus giving Portuguese extra reasons for being cheerful, proud and – why not? – motivated, I decided to prepare a deep mid winter recipe, using ingredients that provide extra energy and resistance. It took me about an hour to prepare and cook this dinner.  

Buckwheat – which is neither wheat or a cereal but simply a seed – is quite appropriate for this season; it comes from regions with extreme hard climates and thus is very resistant and adaptable, probably due to its protein content; last, not least, it does not contain gluten – and if you google it, you shall find  one thousand other reasons to consume it.

I confess that it took me some time before I could do with its strange flavour but I now quite enjoy buckwheat; for those who have the same problem try to use it in recipes where the flavour is not highly concentrated, as in a miso soup. The result will be a delicious, highly nutritive and warming soup – which can also be a complete dish, if you add some smoked tofu or a bit of boiled white fish and extra green, as peas or green beans. 

Oat is also very appropriate for winter days as it has more fat than any other cereal but, strangely enough, it is an important aid if one is trying to loose weight or reduce cholesterol levels – again, just google it and you'll discover one thousand plus one reasons to eat oat; I have been consuming oat flakes (without milk or sugar) in breakfast porridges for some decades now and can testify that not only have I not gained weight but also that my cholesterol level is well below current limit values.

But when it comes to grains, I only cook oat with rice, in a 1/3 and 2/3 proportions, respectively. 

Tofu is very low in energy so it should be used adding extra sources of energy, as fat and sauces.

BUCKWHEAT MISO SOUP
Ingredients
Water
1 cup (coffee) of buckwheat washed and drained
Half an onion, sliced in very fine stripes
One carrot, sliced and cut into small sticks
A bit of wakamé algae, cut into very small pieces (or a bit of wakamé flakes)
Salt
1 teaspoon of miso per person I used rice miso, my favourite)

Preparation
In a pan, put all the ingredients, except for the miso, and bring to the boil, letting it then simmer for 20 minutes (or until the buckwheat is tender). Before serving, mix the miso with some table spoons of the boiling water, mix well, and pour into the pan. Serve with a fresh herb as parsley. 

OAT & RICE
Ingredients
1/3 tea cup of whole oat grains
2/3 cup of tea whole grain rice
3 tea cups of water
Salt
1 stripe of kombu algae
Sesame seeds and chopped parsley to season

Preparation
In a pan, put all the ingredients, except for the sesame seed, and bring to the boil, letting it then simmer for approximately 45 minutes (or until tender). Serve with a topping of sesame seeds and finely chopped parsley.
STIR FRIED TOFU WITH SOYA SAUCE



Ingredients
250gr tofu
Soya sauce
Bay leafs
Some drops of freshly ground ginger root
Pepper

Preparation
Cut the tofu into small squares with more or less 4cm*4cm, season with soya sauce, drops of ground fresh ginger and bay leafs (should you use lemon be careful because lemon - as well as vinegar - intensifies the existing salt in soya sauce) and leave at least for twenty minutes.

Grease a saucepan with olive oil (just enough to make the pan shine), heat it and add the tofu squares, turning them until they become gold on both sides, pour the soya sauce used in the marinade and let simmer for 2-3 minutes. 

GREEN CABAGE
Boil a bit of green cabbage until very tender, drain, chop it and sauté in a greased saucepan with chopped garlic and a bit of unrefined salt; a drop of rice vinegar (or rice mirin for a more exquisite flavour) can be used to season as well as freshly ground black pepper.

Bon apétit!

segunda-feira, 25 de março de 2013

UM JANTAR DE ANO NOVO E DOIS DESAFIOS...

Sim, é verdade – há muitos anos novos para além do do nosso calendário Gregoriano…
Tradicionalmente este convívio de Ano Novo entre amigos calhava nos Reis.
Este ano - o tal de todos os perigos - não foi possível nos Reis e esteve marcado para 10 de Fevereiro, Dia de Ano Novo Chinês (ano da Serpente).
Tendo o Ano Chinês calhado no Domingo de Carnaval, adiou-se o jantar, o qual veio finalmente a coincidir (mais ou menos…) com o Ano Novo Persa e o Equinócio da Primavera, acontecidos, respectivamente, dias 21 e 20 de Março.
O Ano Persa nada me diz mas o Equinócio, esse, diz-me tudo, a mim criatura solar que precisa da luz como do ar: dias cada vez maiores, muita luz, muito Sol (espera-se!) e muita serotonina para curar invernais depressões e outras maleitas.



Aos convidados foram lançados dois desafios - o primeiro, consistia em trazer uma "multa" baseada numa receita publicada neste blog.
Ao segundo já lá vamos... 














Passemos, então, ao menu Jantar de Ano Novo.

A anfitriã e autora destas linhas trataria das “piéces de resistence”, a saber ods aperitivos sólidos, da sopa e do prato principal.


APERITIVOS
Focaccia de atum
Focaccia de algas
(receitas de Marco Fonseca)
Ingredientes e Preparação
Para cada focaccia
Ervas aromáticas a gosto (orégãos, manjericão, tomilho, alecrim)
2 taças de farinha semi-integral (ou uma integral e uma não integral);
Levedura (1 pacote por cada 500gr de farinha)
2 colheres de sopa de malte de cevada (opcional, não usado neste caso)
1 colher de sopa rasa de sal
Água morna na proporção de 0,55% de cada medida da farinha
2 colheres de sopa de azeite
para a focaccia de algas: 3 colheres de sopa de alga arame ou hiziki demolhada e picada
para a focaccia de atum: 1 lata de atum


Método tradicional: Amassar bem a farinha com todos os demais ingredientes até formar uma massa homogénea e pesada. Fazer uma cruz, tapar o recipiente com um pano e deixar levedar em sítio quente.
Método utilizado: Colocar a farinha, água, azeite, sal, (malte) e levedura na máquina do pão, programa pão básico; quando apitar (ou equivalente, segundo o programa da máquina), acrescentar as ervas e o ingrediente da focaccia em questão. Deixar prosseguir o programa até ao fim do ciclo de levedar, desligar a máquina.
Quando oportuno, estender a massa num tabuleiro largo e polvilhado com farinha. Coze cerca de 30 minutos. Servir morno (porque quente, já se sabe, provoca aquele efeito de “expansão interior” que não convém nada…).


Sangria de frutos silvestres (multa) aqui publicada em DOMINGO 15 de JULHO, NOITE DE JANTAR DE VERÃO.



SOPA DE PEIXE
Esta sopa é inspirada nas sopas do livro “A cozinha de Vítor Sobral” e na receita dos "Menus Festivos" do Curso Anual de Culinária Macrobiótica 2010/11, do IMP, com a qual inaugurei a minha participação neste blog.
Mas não segui à risca nenhuma delas.


Ingredientes e preparação do caldo
2 cabeças e espinha dorsais de tamboril
½ Alho francês em rodelas.
1 tira de alga wakamé
Pitada de sal
Pimenta
2 folhas de louro
Colocar água numa panela alta com o alho francês, a alga, a pimenta; quando ferver, colocar as cabeças de tamboril e respectivas espinhas dorsais e um pouco antes destas estarem cozidas, os fígados dos peixes. Desligar o lume quando o peixe estiver cozido, deixar arrefecer e separar os nacos de peixe cozido da parafernália de espinhas & cartilagens, deixando apenas estas últimas, que se voltam a pôr na panela, deixando ferver até o líquido reduzir para metade.
Coar o líquido e reservar.
Limpar as espinhas e cartilagens uma a uma aproveitando toda a gelatina nelas existentes (é uma enorme trabalheira, mas fica um caldo rico e muito proteico). Juntar todas estas partes gelatinosas e eventuais pedacinhos de peixe ao caldo, em conjunto com a alga e alho francês cozidos, triturar e coar. Reservar.


Ingredientes e preparação da sopa
2 cebolas, 2 cenouras, 1/2 pimento vermelho, 7 a 8 cogumelos frescos, todos em cubos pequeninos, 1 folha de louro, hortelã, vinagre de ameixa q.b., 2 dentes de alho picados e azeite, os nacos e fígados das cabeças de peixe cozidas, miso branco.
Saltear a cebola no azeite com sal durante alguns minutos até ficar transparente, juntar a cenoura, o cogumelo, e, por fim,  o pimento. Cobrir com água e deixar estufar mais 15 a 20 minutos. Juntar o caldo de peixe que for necessário para o número de comensais (o que sobrar pode congelar-se em pequenos recipientes para uso futuro).
Deixar cozinhar alguns minutos (+/- cinco), retirar uma porção de caldo e misturar com uma quantidade generosa de miso branco. Acrescentar os pequenos nacos de peixe os fígados cortados em pedacinhos. Rectificar o tempero e borrifar com vinagre de ameixa.
Servir em taças de consommé, decorado com folhas de hortelã frescas.



EMPADÃO DE TAMBORIL COM VEGETAIS, MASSA ESPIRAL E MAIONESE DE TOFU SEDOSO
Ingredientes
Peixe: 2 lombos de tamboril bem abertos em filetes (tem que se cortar de modo a “desfazer” o rolo formado pelos lombos), cozidos num tacho largo e em pouca água
Massa: ½kg de massa espiral bicolor biológica, cozida.
Vegetais: cogumelos frescos variados a gosto, cortados em pequenos cubos, 4 cebolas cortadas em meias luas grossas, 4 cenouras e 1/2 pimento cortadas em palitos finos, que se preparam da seguinte maneira:
Aquecer um tacho largo e fundo, juntar o azeite necessário para forrar o fundo, colocar a cebola e temperar com sal; quando a cebola estiver a ficar transparente, adicionar a cenoura com uma pitada de sal e, por fim os cogumelos e o pimento. No fim, borrifar com vinagre de ameixa q.b. e rectificar o tempero.
Maionese: 2 pacotes de tofu silk, azeite q.b., 1 colher café de mostarda, uma colher de sobremesa de sumo de limão, sal a gosto, uma pitada de pimenta, ervas aromáticas a gosto (no caso, manjericão) e um golpe de vinagre de ameixa. Triturar tudo com a varinha mágica num recipiente alto.
Finalização
Num recipiente de ir ao forno colocar no fundo os vegetais estufados, cobrir com os lombos de tamboril, a massa cozida e a maionese que se pode salpicar com ervas aromáticas picadas. Levar ao forno cerca de meia hora e servir de imediato.




O empadão foi acompanhado de uma salada muito bem preparada (multa).











SOBREMESA







A acompanhar, uns vinhos do Douro, multas de quem sabe do que a casa gosta em matérias de Baco…

E, mesmo no fim, para despedida de mais um ano quase a cumprir-se, um bolo confeccionado de acordo com a receita de bolo de aniversário do Marco Fonseca. 









Ingredientes e preparação
Base
A)   300gr de farinha de amêndoa, 300gr de farinha de espelta ou trigo; 1 pacote de 18gtr de levedura instantânea.
B)   200ml de leite de soja; 200 ml de óleo de grainha de uva; 200ml de concentrado de maçã ou de geleia de arroz, pitada de sal.
Misturar os ingredientes de A e, separadamente, os de B, estes com a varinha mágica, e envolver B em A. Levar ao forno pré-aquecido e à temperatura de 180ºC, em forma redonda untada e polvilhada com farinha, durante cerca de uma hora.
Recheio

0.5kg de abóbora, de preferência hokaido (larga menos água), geleia de arroz a gosto (300 a 400gr), casca de limão, pau de canela, 1 colher de sopa de amido de milho e 1 colher de chá de agar-agar dissolvidos numa chávena de leite de arroz ou soja, um pouco de vagem de baunilha, pitada de sal.
Cozer a abóbora com uma pitada de sal, a casca de limão, a baunilha e o pau de canela e o mínimo possível de água; quando estiver cozida, escorrer, retirar a casca de limão, a baunilha e o pau de canela triturá-la com a varinha mágica.
Numa panela levar ao lume o leite de soja com o puré de abóbora, a geleia e o amido e o agar-agar previamente dissolvidos.
Mexer continuamente o preparado. Prová-lo para rectificar o doce, tendo em consideração que quando está quente parece sempre mais doce do que em frio, pelo que se, nessa altura, estiver pouco doce deve-se acrescentar mais geleia.
Quando começar a engrossar, desligar o lume e deixar arrefecer.
Cortar a base de bolo ao meio e barrar a metade de baixo com o creme. Polvilhar com amêndoa picada se se quiser, cobrir com a metade de cima e barrar o resto do bolo com o creme, polvilhando igualmente com a amêndoa ralada se se quiser.

O segundo dos desafios era uma "prenda amigo mistério" feita por cada um e embrulhada em vermelho. E porquê o vermelho? Desde logo, porque é a cor do Sol que há-de vir para fazer esquecer este longo Inverno; além disso, os chineses acham que o vermelho traz sorte e dinheiro e, neste momento, mais do que nunca, eu quero acreditar em todas as superstições relacionadas com riqueza e prosperidade...
E o vermelho foi a cor dominante deste Jantar...






 

 
Na "mouche"...
  

 

domingo, 10 de março de 2013

EMPADÃO DE SEITAN NO FORNO

A base deste empadão (empadão de tofu fumado com massa) é extremamente versátil e permite inúmeras variações, muito bem vindas neste tempo ainda invernoso.
Chamemos a este uma Variação Goldberg pois casa muito bem com Bach...
 


INGREDIENTES

Para o molho de vegetais
1 cenoura cortada em tiras
1 cebola cortada em meias luas
2 cogumelos de paris grandes cortados em pequenos quadrados
azeite e sal q.b.
Para o picado
1 embalagem de seitan com 500gr.
molho de soja, louro, água e azeite
salsa picada
Para a maionese
leite de soja
azeite
mostarda
pimenta
umas gotas de sumo de limão
sal
salsa
 

PREPARAÇÃO
Molho de vegetais
Alourar a cebola em azeite com pitada de sal até ficar transparente, juntar a ce1 cenoura, com nova pitada de sal e quando esta estiver macia juntar os cogumelos. Tapar e deixar estufar. No fim pode-se temperar com umas gotas de vinagre de ameixa ou  mirin.
Picado
Cortar o seitan em fatias e colocá-lo a marinar com o molho de soja, o louro, água e um pouco de azeite. Estufar até o seitan ficar bem tenro. No fim acrescentar umas tiras de cebola e de cenoura.
Picar na 1,2,3. Rectificar os temperos e polovilhar com salsa finamente picada.

Maionese
Num copo alto bater o leite de soja com a azeite e demais temperos até obter uma consistência mais ou menos firme (a consistência será tanto mais firme quanto maior a quantidade de azeite relativamente ao leite de soja).
 
Num pirex de ir ao forno colocar o molho de vegetais no fundo, o picado de seitan uniformemente espalhado, massa espiral cozida (basta uma chávena para duas pessoas) e, por último, a maionese.
 
Vai ao forno pré-aquecido cerca de 30 minutos.
Servir acompanhado com uma grande salada fresca (e, neste caso, também bróculos escaldados).
 
Foi um jantar especialmente retemperador para este (fim de) Inverno do nosso contentamento (contrariamente ao que é hábito este ano está a saber-me bem o recolhimento invernal; talvez para o ano me saiba melhor se conseguir hibernar como a marmota alemã e o urso polar...)


 
 

sábado, 9 de março de 2013

MAIS UMA SOBREMESA DE MAÇÃS

INGREDIENTES
(por pessoa)
1 maçã
1 pau de canela
1 fatia de limão
1 folha de hortelã para decorar
1 colher de chá de geleia de arroz
1 colher de café de agar-agar

PREPARAÇÃO
Lavar muito bem as maçãs com a escova de cereais, tirar-lhes a parte do meio com o instumento apropriado e mergulhá-las em água com sal. Espetar um pau de canela em cada maçã com a rodela de limão. Levar ao lume num tacho tapado com pitada de sal.Vigiar para não deixar queimar (se necessário, borrifar com um pouco de água). Quando as maçãs estiverem cozidas retirá-las do tacho.

Acrescentar ao líquido largado pelas maçãs a geleia e o agar-agar dissolvido em água, deixar engrossar.
Servir as maçãs com a geleia/caramelo decoradas com uma folha de hortelã.  

sábado, 8 de dezembro de 2012

PORTO (COM)SENTIDO


O rio, o mar, o granito e o ferro talharam esta cidade e suas gentes, cujo carácter se forjou na adversidade.
Do rio, diz-se que, tendo acordado tarde, partiu em desvantagem para a competição com os seus irmãos do sul, razão pela qual galgou montes e escarpas, trilhando o seu caminho pelos piores lugares possíveis, mas foi o primeiro a casar com o mar salgado que abraça a cidade pelo poente, e, desde então, essas duas atormentadas forças da natureza têm vivido uma união as mais das vezes pacífica mas na qual a tragédia é visita, infelizmente, algo frequente.

A dureza do granito, que não foi suficiente para impedir que as gentes da terra o talhassem como quem talha madeira, e o rendilhado do ferro forjado de portões, gateiras, janelas, varandas e frontões, emprestam à cidade um ar de velha senhora plena de aristocrata soberba, cuja austeridade apenas se ameniza com os muitos azulejos que decoram as fachadas.
                
  
É no Outono, quando as árvores se tingem de ocres e magentas, e no Inverno, quando japoneiras (1) e magnólias explodem nos jardins – públicos e privados - com um furor impressionista que não deixaria Monet indiferente, que a cidade adquire os contornos característicos e doces de uma luz que não fere, antes envolve.
Chego lá de combóio e entro na cidade depois de atravessar uma das três irmãs mais novas ou de segunda geração (2) que une a cidade à margem sul. Fujo da deprimente estação terminal apanhando o primeiro combóio que me leva a S. Bento, ponto de partida para o meu périplo.

O interior da estação está decorado com frescos de azulejos que retratam momentos da História de Portugal.
Mais do que uma estação de comboios, S. Bento é uma verdadeira obra de arte, erigida ao estilo francês da época, replicado posteriormente no Palácio do Conde de Vizela, nas Carmelitas.

S.Bento e o Palácio dos Condes de Vizela foram concebidos pelo arquitecto Marques da Silva, autor de vasta obra na cidade, mas de que destaco aquela que é actualmente a mais célebre casa portuense – a Casa de Serralves – expoente da então modernista Art Déco e mandada construir pelo 2º Conde de Vizela em meados dos anos vinte, em local então situado nos arrabaldes da cidade. De Marques da Silva é igualmente a autoria do monumento às Guerras Peninsulares, construído em 1909 para celebrar o primeiro centenário da vitória sobre as tropas napoleónicas.


A combinação do granito com os azulejos produziu, aliás, as belíssimas e emblemáticas Igrejas do Porto.


Sem sair da estação apanho o metro que me há-de levar para a outra margem. Atravesso de novo o rio, agora por uma das irmãs mais velhas, e saio na primeira paragem.


Subo à Serra do Pilar e admiro a cidade na sua mais bela e celebrada imagem – aquela que nos permite ver em simultâneo todas as irmãs: as elegantes filhas do Romântico industrial, uma das quais arquitectada por Gustave Eiffel, a não menos elegante Arrábida, concebida e executada por um dos filhos insignes da terra, de seu nome Edgar Cardoso e profissão engenheiro, e as mais recentes irmãs mais novas, coevas dos fundos estruturais e do desenvolvimento do betão (há aliás projectos de construir mais cinco, ou, pelo menos três, pontes... Ai como eu gosto de autarcas sem obra e que medo me dão tão tresloucados projectos!... Adiante, que o dia é curto, e se sobrevivemos aos franceses e às tropas de D. Miguel, também sobreviveremos a isto...); a Sé, o Seminário de Vilar, a Igreja dos Grilos, o alto da Torre dos Clérigos e dos arranha-céus do Notícias (3) e da Cooperativa dos Pedreiros (4), o Barredo, a Ribeira - Património Mundial desde 1996 -, os Jardins do Palácio já não de Cristal mas sim convertido em Pavilhão dos Desportos ou Pavilhão Rosa Mota (5), a marginal, que, qual serpentina, se desenrola até à Foz. À direita vislumbra-se a Quinta do Nova Sintra, onde funcionam as Águas, e apenas se adivinha a continuação da marginal que nos leva até Entre-Os Rios, terra tragicamente famosa pelo ruir de uma outra ponte. Numa cegueira selectiva, elimino da retina os monos e mamarrachos que, desde meados do século XX, vêm enfeiando a paisagem e que nunca, mas nunca, nem sequer quando construídos, foram bonitos.

Regresso à cidade pela sua mais magnífica entrada - uma cidade que muitos dizem ser triste, escura, provinciana e enfadonha.
Com a distância que a condição de imigrante me confere, reconheço a enorme evolução positiva que a cidade sofreu nas últimas décadas. Nela não encontro mais tristeza do que noutros locais do país – talvez uma depressão que, insidiosamente, se arrasta há mais anos, e mais visível apenas porque no Porto ando mais nas ruas e nos transportes públicos e posso sentir  - e ouvir - melhor o pulsar das forças vivas da cidade e do povo. E, é verdade, vê-se muita cara gasta e cansada, dorida e sofrida. Mas experimente-se viajar em Lisboa em certas carreiras de autocarros (no 712, p. ex., que vai para a feira da ladra…) e ver-se-ão dores e sofrimentos igualmente expressivos.

Quanto à luz, não vejo escuridão, antes uma luz peculiar e doce, que não é, claro está, a luz branca de Lisboa nem das cidades do Norte de África, mas, afinal estamos numa cidade do Norte, que partilha com outras cidades do Norte muita da sua personalidade – das que conheço, lembro-me de Amsterdão e das suas casas altuças e estreitas mas muito profundas, lembro-me da Grand Place de Bruxelas de que a Avenida dos Aliados parece irmã.

Provinciana, talvez, e digo isto não no sentido depreciativo de apoucar quem é da província mas pela constatação real de que muitos portuenses substituem a sua falta de mundo por um bairrismo insuportável que os faz julgar serem os melhores do mundo, tentação em que é fácil cair quando desse mesmo mundo nada se conhece. Mas também sei que foi esse bairrismo que, convertido em anti-centralismo, ajudou a vencer muitas lutas que haveriam de transfigurar o poder político e os destinos da Pátria – foi assim com a ajuda no cerco de Lisboa em 1383-85, com a resistência às Invasões Francesas, que os levou a astuciosamente dissimular a talha de ouro da Igreja de S. Francisco, assim ludibriando os gauleses que deixaram incólume o altar que pensavam ser de vulgar gesso, com a decisiva participação nas guerras liberais que legou à cidade a Rua do Cerco do Porto, cujo bairro (do Cerco) não é, infelizmente, muito bem afamado, e o coração do Rei D. Pedro IV, depositado, por vontade do próprio, na Igreja da Lapa. Mais recentemente, esse verdadeiro “Papa” que dá pelo nome próprio de Jorge Nuno e apelido Pinto da Costa, exacerbou, em proveito próprio e do FCP, a rivalidade entre portistas e o resto do mundo (é mesmo disso que se trata!) com os resultados que se sabem. Eu, que não gosto da coisa e acho que o futebol devia ser jogado a feijões, rendo-me à subtil inteligência de um homem que de bronco nada tem e que conseguiu em trinta anos destronar as hegemonias do Sul (claro que lhe agradecia três subidas finezas: mandar os super-dragões para junto dos dinossauros, seus primos, para que, em dias de bola, os energúmenos deixem o bairro em que cresci mais ou menos sossegado; alterar a toponímia da Alameda dos Campeões Europeus para Alameda das Antas e repristinar o Estádio das Antas em substituição do pirosérrimo Estádio do Dragão).

Quanto a ser enfadonha, só mesmo quem não tem ido à cidade nos últimos tempos e não frequenta o eixo de Cedofeita, Miguel Bombarda e das “Galerias” pode achar que uma cidade à qual se deslocam milhares de jovens estrangeiros é enfadonha. Há trinta anos havia no Porto três discotecas – Urraca, Twins e Swing – alguns bares e a noite estava feita. Agora vamos para as “Galerias” (petit nom que tem origem nas galerias comerciais denominadas “Galerias de Paris” e que viram a luz do dia no dealbar do século XX), o Bairro Alto portuense, que sobre o original alfacinha tem a vantagem de não ser medieval e ter uma traça copiada dos haussmanianos boulevards da Paris de oitocentos. E que dizer da animação cultural da Rua Miguel Bombarda e suas irmãs, sobretudo nos sábados de abertura simultânea das exposições? Essa é aliás uma das zonas mais emblemáticas do Porto romântico de oitocentos (não esqueçamos que parte da trama de Uma Família Inglesa se passa na contígua Rua de Cedofeita).

À semelhança dos outros países cristãos, o burgo nasceu e desenvolveu-se dentro de muralhas e em volta da catedral. A Sé baptizou, aliás, uma das freguesias seminais da cidade, que assim tomou o tome da madrinha. Neste templo - originariamente gótico mas ao qual foram acrescentados abundantes elementos dos estilos que se haviam de seguir – mandado construir por D. Hugo, o bispo francês a quem a mãe do nosso primeiro Rei terá atribuído o foral do burgo, reside hoje a imagem de Nossa Senhora da Vandoma, a padroeira da terra trazida de França no século XI e que ornamentava uma das Portas da Cidade - a Porta de Vandoma. Aqui se casaram os fundadores da Dinastia de Aviz – D.João I e D. Filipa de Lencastre –, pais de outro filho ilustre da terra, o Infante D. Henrique, que dá nome a nada menos do que quatro edifícios na cidade: a Casa do Infante, onde terá nascido, situada na Praça em que brilham a Bolsa e o Mercado Ferreira Borges, expoentes do poder económico do Porto de oitocentos, o Hotel Infante de Sagres, primeiro grande hotel de muito luxo da cidade, de meados do século XX, o Hotel D. Henrique, moderno e incaracterístico, e que só não parece tão feio como realmente é porque ao lado do seu vizinho silo-auto qualquer mamarracho é um Prémio Valmor… e, por último, a Ponte do Infante.

No Terreiro da Sé admiro a outra margem, belíssima, não mais parente pobre mas competidora por direito próprio com a margem Norte, e penso em como faria sentido termos a nossa BudaPeste ou a nossa Paris com a sua Rive Gauche (mesmo tendo que transigir com as pontes suplementares…) em vez de duas irmãs siamesas mas de candeias às avessas...

Como boa portuense, sou fiel às tradições e hostil às mudanças que me agridem. O Porto é, para mim, antes de mais, o Porto oitocentista, romântico, que se respira em cada linha de Júlio Dinis, que se adivinha no amor trágico de Camilo e Ana Plácido, presos na Cadeia da Relação por terem cometido o supremo crime de amar, que se sente nas casas e jardins das Ruas de Costa Cabral, do Bonfim, Cedofeita, Breyner, nos jardins da Quinta do Nova Sintra, nos cemitérios de Agramonte e do Prado do Repouso. É o Porto do Palácio de Cristal, não do Pavilhão dos Desportos…, do Grande Hotel do Porto, dos Cinemas Águia d’Ouro, Batalha e Sala Bebé, Trindade, Passos Manuel, Júlio Dinis, Perpétuo Socorro e do mais novel Foco, todos eles desaparecidos e substituídos por salas onde, por entre pipocas e coca-colas, dizem que passam filmes. É o Porto rural que conheci na minha infância e que ainda subsiste em algumas quintas e jardins de Lordelo, nas japoneiras e magnólias que explodem no Inverno. Porto é neblina, nuvens plúmbeas e prenhas de humidade, nevoeiros cerrados que nos molham os ossos e toldam a visão. É o passeio que nos leva do Infante até à Foz, a Foz Velha, a dos Pescadores de Raúl Brandão, palco de desgraça e miséria como soem ser as terras das gentes do mar, a Foz das vagas e vagalhões de um mar transfigurado pela fúria. É, por fim o Porto comercial da “baixa”, que persiste apesar das novas catedrais do consumo, do emblemático Bolhão, das Casas Ramos e Chinesa, nas quais encontro os produtos de que preciso para os meus menus macrobióticos, da Casa Natal, mercearia fina, a única onde sei comprar bacalhau… (6) e que visito nem que seja só para ouvir “Então o que vai ser hoje, Menina?”
Porto é aquele que pinta José Augusto Castro, meu amigo de infância.
 (Bairro da Sé - 1997)                                 (Muralha Fernandina - 1997)



 
                               (Barcos no Douro - 1997)

E, tal como o Príncipe de Salinas em “O Leopardo”, também eu acho que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Por isso espero que a cidade, fazendo jus ao seu ADN, saiba contornar os tempos difíceis que vive e possa evoluir sem perder a sua matriz identitária. 
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(1) Por serem originárias do Japão, as camélias – flor símbolo da cidade – são nela conhecidas por “japoneiras”.
(2) As três irmãs era o nome dado ao conjunto das Pontes D. Maria Pia (também conhecida como “A Velha Senhora”), D. Luís e da Arrábida; a estas vieram a acrescer, nos últimos vinte anos, a Ponte S. João, a Ponte do Freixo e a Ponte do Infante.
(3) O Notícias - abreviatura do Jornal de Notícias, actualmente primo-irmão do (Diário de) Notícias que sai em Lisboa e verdadeiro campeão de venda mais que não seja para consulta do obituário – é hoje o único jornal do Porto, tendo sobrevivido aos centenários O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro. A sua sede é um edifício feio e incaracterístico do séc XX que tem a particularidade de poder ser visto quase de todos os pontos altos da cidade e de Gaia.
(4) Um restaurantes panorâmico, referência incontornável para a burguesia portuense de meados do século passado; não sei se os Pedreiros eram livre nem se usavam avental…
(5) O Palácio de Cristal, inaugurado em 1865 para acolher a Exposição Internacional do Porto, foi concebido de acordo com os cânones arquitectónicos da época, em granito ferro e vidro (daí o “cristal” do nome) e mandado construir pela Associação Industrial Portuense. Comprado pela Câmara do Porto, foi destruído à martelada em 1951 para dar lugar a um edifício de betão que albergaria o Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins.

(6) Tenho amigos de Lisboa que vão religiosamente ao Porto no mês de Dezembro para comprar o bacalhau que lhes enriquece a consoada.
= Fotos de S. Bento, Palácio do Conde de Vizela, Serralves e Igreja foram tiradas da NET.. =
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Esta é uma viagem sentimental e, por isso, pessoalíssima.

Ficou muito - quase tudo - por dizer.
Do Anikibobó de Oliveira, à Casa de Chá de Sisa.
De Aurélia de Sousa a Pousão, meu pintor de eleição.
Dos pastéis que se vendem nas confeitarias, aos galões de cimbálino acompanhados de torradas "bijue" secas, sem esquecer os melhores croissants do mundo (sou do Porto, não há nada a fazer...) - os da Doce Mar, na Foz.
Dos bueiros para onde escorrem as águas, às bolas que pincham, dos picheleiros que consertam canalizações, às posturas onde se apanham táxis, sem esquecer os desandadores que servem para apertar parafusos...
E, por fim, mas não necessariamente menos importante, das mulheres do Porto, verdadeiro ex-libris da cidade, no seu aprumo e rigor formais, em sintonia com a austeridade da cidade, mas que nos desconcertam com a ousadia dos decotes, das mini-saias e, sobretudo, dos comentários maliciosos, a roçar a brejeirice...
Mas, para tal, um simples artigo num blog, a propósito de gastronomia, nunca seria suficiente...
Quanto ao título, parto da canção de Rui Veloso para criar duas derivações - a primeira, "com sentido" apela a um Porto coerente, a segunda "consentido" faz-nos lembrar que o Porto, sendo muito hospitaleiro, é no entanto fechado e para nele se entrar é preciso ter o seu consentimento.
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Com este artigo participo no Convidei para Jantar Uma Cidade, iniciativa da Ana, que este mês está a decorrer em casa da Marmita.



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Rebuscada a memória, lembro-me de, em criança, os meus pratos favoritos serem bife de fígado (não iscas), arroz de cabidela (de galinhas cujas goelas vi cortar sem sequer piscar os olhos) e uma boa rojoada com muito sangue frito à mistura...
Lá por casa (onde almoçava e jantava invariavelmente um ror de gente) usavam-se «comidas de sustância": os ranchos, os ragus, as sopas cheias de entulho, os arrozes de bacalhau, polvo, feijão, acompanhando filetes de pescada, bacalhau ou polvo; os meus favoritos, para além da cabidela, eram os pudins de arroz com atum, enformados numa linda forma ondulada onde também se costumava fazer um pudim de arroz de ervilhas; confesso que me fascinava contar o número de "ondas", tarefa impossível porque alguém começava a servir-se e lá desapareciam as ditas; os meus terrores eram os favoritos do pater familias: arroz de favas, arroz de bróculos, arroz de "penca"... Bom, mas sobrevivi e hoje até gosto de bróculos... 
As tripas, o bacalhau à espanhola, o bacalhau à Gomes de Sá e o bacalhau dourado (dito à Brás, em Lisboa), as pataniscas, os bolinhos de bacalhau também pontuavam.
Menus festivos tinham bacalhau do lombo pela certa ou então um lombo de carne assado no forno. Fora de casa, em quintas de conhecidos, tínhamos os rojões e as papas de sarrabulho, na altura da matança.
Peixe, para além do bacalhau, havia a pescada, em filetes ou à posta, carapaus, chicharros e fanecas. Na Primavera, o verdadeiro sável do rio, a que nunca achei piada pois tinha espinhas mais que muitas.
Nas dietas, muita farinha de pau "a seco" ou com frango, podendo também levar bacalhau.
Faziam-se também umas açordas de bacalhau que até não seriam más se alguém não se tivesse lembrado de as estragar com o raio da "penca".
Doces só em dias de festa. Pudins de ovos, leite creme, aletria e farófias.
Comida honesta e razoavelmente saudável (e só não digo saudável porque a gordura animal era demasiado usada na confecção dos alimentos). Mas a influência afrancesada do Patagruel e do Banquete  foram, de algum modo, descaracterizando os comeres tradicionais, de que a infame francesinha é exemplo maior.
O livro da Maria de Lurdes Modesto - Cozinha Tradicional Portuguesa - já apareceu tarde de mais e, para mim, muito cedo, porque nessa época eu nem queria ouvir falar de cozinha, e, se possível, viveria bem sem comer, porque comer engordava...


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O jantar de hoje foi, pois, um exercício de recriação. Cozinhado a quatro mãos, M. - emigrante fugaz no Porto - e eu tentámos recriar o que seria um jantar típico duma casa do  Porto. E elegemos o caldo verde com broa de Avintes, o bacalhau escondido, a aletria e as rabanadas de vinho.
Foi um jantar do Porto, com contas à moda Porto - M. confeccionou o bacalhau e a aletria tradicional. Eu cozinhei o caldo verde, as rabanadas e a aletria não tradicional.

A mesa e pormenor da argola de guardanapo feita pelas mãos de fada de M.



Faltam só as receitas. Passemos a elas!

CALDO VERDE (versão macrobiótica)

Ingredientes

Um couve flor generosa
Duas cebolas pequenas
Um courgette sem casca
Sal
Azeite
Couve portuguesa migada
Cubos de tofu fumado e estorricados nos forno

Preparação

Estufar as cebolas cortadas em cubos com um pouco de azeite e sal, acrescentar a couve flor em bocados e a courgette em cubos, tapar com água e deixar cozer. Migas as folhas verde da couve da couve e cozê-las durante bastante tempo no vapor.
Antes de servir, bater os ingredientes do caldo na liquidificadora e só então juntar a couve, acrescentando igualmente uns quadradinhos de tofu fumado estorricado. Servir com broa de Avintes (feita de centeio e milho).



BACALHAU ESCONDIDO


Ingredientes

Bacalhau cozido em lascas (sendo este é um prato de aproveitamentos, o bacalhau era normalmente da parte menos nobre)
Batatas cozidas cortadas em cubos
Cebolas em rodelas
Hortaliça cozida e cortada
Ovos cozidos cortados às fatias
Azeitonas pretas
Azeite
Sal
Molho béchamel

Preparação

Estrugir (refogar) a cebola com azeite, sal e alhos  picados, juntar as couves e deixar amolecer bem.
Num recipiente de ir ao forno colocar os ingredientes em camadas - a cebolada de hortaliça, batata, bacalhau, as rodelas de ovo e azeitonas. Cobrir com o molhio béchamel e levar ao forno a gratinar.

Pode servir-se com uma salada para dar um toque de frescura.



ALETRIA

Ingredientes

250 gr de aletria
250gr de açúcar
1/2 lt de leite
2 ovos
água q.b.
pitada de sal
casca de limão
pau de canela
canela para decorar

Preparação


Cozer a aletria em água abundante com uma pitada de sal, quando estiver cozida, escorrê-la bem e levar ao lume com o leite, a casca de limão e o pau de canela e o açúcar, até a massa ter absorvido completamente o leite. Retirar a casca de limão e o pau de canela. Bater os dois ovos e envolvê-los na massa quase fria. Decorar a gosto.

Na minha versão macrobiótica, usei massa e leite de arroz, açafrão para dar cor e geleia de arroz em vez de açúcar, nas seguintes quantidades: 100gr de massa, 300ml de leite, 100gr de geleia de arroz. Reconheço que há sobremesa macrobióticas infinitamente melhores e esta só a fiz para cumprir a tradição.



RABANADAS DE VINHO

Ingredientes


Um pão cacete para rabanadas cortado em fatias grossas
Vinho tinto maduro e vinho tinto verde (metade de cada)
Canela em pau, casca de limão
Um copo de vinho do Porto
Açúcar q.b.
Óleo para fritar


Preparação


Juntar os três vinhos e levar ao lume com um pouco de açúcar, o pau de canela e a casca de limão; deixar arrefecer, passando então as fatias de pão, rapidamente para não se desfazerem, escorrê.las e fritá-las em óleo abundante e bem quente. Absorver o excesso de gordura.
Levar a calda dos vinhos ao lume com mais açúcar e deixar ferver até reduzir para metade. Tirar o pau de canela e o limão.
Dividir as rabanadas por duas taças de servir. Polvilhar uma metade com açúcar e canela e regar a outra metade com a calda dos vinhos.


Na minha versão, substituí o açucar por meio frasco de geleia de arroz e não fritei as rabanadas: depois de as passar pela calda e escorrer, levei ao forno a tostar. Serviram-se com açúcar e canela (quem quis) e cobertas com  calda que, de tanto reduzir, parecia caramelo.
A receita destas rabanadas veio de Avintes, terra de minha mãe - e da broa -, e só as conheço em minha casa e nas de familiares próximos. Como não são muito doces (o vinho verde confere-lhes muita acidez) ou se amam ou se odeiam. Nós gostamos - pela tradição e, sobretudo, porque ao fim de uma noite de doçaria sabia bem desenjoar - e não as dispensamos no Natal. Dantes, era no Natal, no Ano Novo e nos Reis...